Mensagem do Primeiro Congresso Brasileiro de Animação Bíblica da Pastoral
1. Com o coração repleto de alegria, nós, os 500 participantes do Primeiro
Congresso Brasileiro de Animação Bíblica da Pastoral, celebrado em Goiânia, de 08 a 11 de outubro de 2011, saudamos fraternalmente a toda a Igreja que está no Brasil com quem partilhamos a riqueza da Palavra de Deus experimentada nesses dias de convivência, reflexão e comunhão.
A Palavra de Deus é viva e eficaz (Hb 4,12). Por Ela, Deus se revela, se comunica, vive em nós e conosco, pois Ele se doou por completo a nós, em Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem (Jo 1,1.14). Ele é a Palavra Encarnada visível, audível, tocável, princípio de todas as coisas; Palavra salvadora, transformadora, libertadora, que ilumina, alimenta e leva a resistência na defesa integral da vida e da dignidade humana. Palavra que É e dá sentido a tudo o que somos e temos. Palavra que alimenta a fé, fortalece a esperança e concretiza o amor.
2. Nestes dias de graça, resgatamos a memória do caminho que a Palavra fez conosco e do caminho que fizemos com Ela na história. Lemos os Sinais dos Tempos nos desafios e oportunidades da civilização em mudança, na qual estamos inseridos.
Entendemos que a Animação Bíblica da Pastoral é uma dádiva de Deus, capaz de reavivar na Igreja a consciência de que a sua identidade e missão derivam da Palavra de Deus; capaz de renovar e dinamizar a vida, as estruturas e a ação da Igreja em sua totalidade.
Sentimo-nos provocados a construir, em nós e na comunidade eclesial, uma postura aberta e condizente com o divino processo transformador e revitalizador das pastorais, dos movimentos, das CEBs e das pequenas comunidades, estabelecendo inter-relação, interdependência e cooperação entre os pastores e os fiéis em todas as iniciativas pastorais, impulsionando o dinamismo, o crescimento e a irradiação dessa Palavra.
Cabe-nos agora assumir, com coragem e juntos, a tarefa de fazer acontecer a Animação Bíblica de toda a Pastoral.
3. O Papa Bento XVI alerta-nos: “Não se trata de acrescentar qualquer encontro na paróquia ou na diocese, mas de verificar que, nas atividades habituais das comunidades cristãs, nas paróquias, nas associações e nos movimentos, se tenha realmente a peito o encontro pessoal com Cristo que se comunica a nós na sua palavra. Dado que a ignorância das Escrituras é a ignorância de Cristo (São Jerônimo), então podemos esperar que a Animação Bíblica de toda a Pastoral ordinária e extraordinária levará a um maior conhecimento da pessoa de Cristo, Revelador do Pai e plenitude da Revelação divina” (VD no. 73).
4. Irmãs e irmãos invoquemos o Espírito Santo, para que nos dê, a todos nós a atitude do discípulo, que escuta para colocar em prática o que o Senhor diz, e nos dê a graça de dinamizarmos a Animação Bíblica da Pastoral. Para isso, propomos:
a) que a conversão pessoal e pastoral, solicitada pelo documento de Aparecida, seja fortemente alimentada pela leitura diária e a vivência da Palavra de Deus, priorizando o método da Leitura Orante;
b) que a iniciação à vida cristã, formando verdadeiros discípulos missionários, seja alimentada e dinamizada pela Palavra de Deus;
c) que a família e as comunidades se congreguem ao redor da Palavra de Deus e, à sua luz, reforcem as suas relações de vida e de comunhão;
d) que todas as iniciativas em nossa Igreja partam da Palavra de Deus, por ela se iluminem, se alimentem e se avaliem;
e) que todas as Igrejas Particulares invistam na formação bíblica dos leigos e leigas e na formação bíblica-pastoral dos seminaristas e dos presbíteros;
f) que a leitura das Sagradas Escrituras nos converta ao acolhimento, à convivência fraterna e à colaboração mútua de todos os cristãos promovendo um verdadeiro ecumenismo;
g) que nós, convertidos pela Palavra de Deus, sejamos agentes transformadores da sociedade, a favor dos mais necessitados, tendo em vista o Reino de Deus que também é nosso.
5. Isso exige, por parte dos bispos, dos presbíteros, dos diáconos, dos religiosos e religiosas, dos ministros da Palavra, dos agentes de pastoral e de todos os leigos e leigas uma firme decisão e um sólido compromisso que concretize a Animação Bíblica da vida e da pastoral nas nossas Igrejas particulares. Isso se realizará na medida em que a Palavra continuar o seu mistério de encarnação em cada um de nós como em Maria.
6. Que a Palavra de Deus, lâmpada para os nossos passos e luz para o nosso caminho, guie todos os esforços para que Cristo Jesus seja tudo em todos.
Goiânia, 11 de outubro de 2011.
“É preciso fundamentar nosso compromisso missionário e toda a nossa vida na rocha da Palavra de Deus” (Doc. Aparecida 247)
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
SÓ PODE TRABALHAR COM A PALAVRA, QUEM SE DEIXA TRABALHAR PELA PALAVRA.
Dedicado a Carlos Mesters em seus 80 anos.
Catequistas, agentes das mais variadas pastorais, religiosas, religiosos, padres, bispos de todas as regiões do Brasil participaram de 8 a 11 de outubro, em Goiânia, do I Congresso Brasileiro de Animação Bíblica da Pastoral. Realizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), através da Comissão Episcopal Pastoral para Animação Bíblico-pastoral, e pela Sociedade de Catequetas Latino-americanos (SCALA), o Congresso reuniu 500 pessoas.
O presidente da Comissão Episcopal Pastoral para Animação Bíblico-catequética da CNBB e arcebispo de Pelotas (RS), dom Jacinto Bergmann abriu o Congresso destacando a importância da Palavra de Deus na vida da Igreja. Segundo o arcebispo, a bíblia deve nutrir a vocação e a missão de todo discípulo missionário. “Trata-se de compreender que a Palavra de Deus é a alma, o coração de toda pastoral, de toda ação evangelizadora da Igreja”, disse.
Dom Jacinto recordou os objetivos do Congresso. “Precisamos com coragem entender, construir e assumir uma viva e eficaz animação bíblica da pastoral. Isto é, tornar a palavra de Deus a alma da Igreja”, acentuou. De acordo com dom Jacinto, a Igreja, nos cinco continentes, “respira a grande inspiração de uma animação bíblica da pastoral”.
"A Igreja num mundo em mudança". Este foi o tema que abriu o ciclo de debates do Congresso. O tema foi apresentado pelo teólogo, padre Joel Portella. Segundo padre Joel, o fenômeno da mudança de época, que caracteriza os tempos atuais, não é específico da Igreja Católica, nem de uma região do planeta. A mobilidade e a provisoriedade são características dos novos tempos. “O caráter desconcertante da atual mudança de época decorre da radicalidade com que os critérios se transformaram e estão se transformando”.
Ele defende que estas mudanças não são “de todo negativas”, mas também “momentos muito propícios para o crescimento pessoal e comunitário”. Padre Joel destacou, ainda, que o cristianismo é marcado pela mobilidade. “Quando nos voltamos, de modo orante, para a Escritura Sagrada, encontramos um fio condutor de mobilidade”, esclareceu, lembrando o Novo Testamento onde se diz que o “Filho do Homem não tendo onde reclinar a cabeça (Mt 8,20), andando de cidade em cidade (Lc 4,43) enviando os discípulos na mesma situação, sem muitos apoios ou condições de estagnação (Lc 10,4)”.
Os biblistas frei Carlos Mesters e Francisco Orofino animaram os 500 participantes do Congresso com a conferência “Jesus, Palavra encarnada, Palavra anunciada”.
Reconhecido pela linguagem simples e pelas histórias que usa para explicar a bíblia, frei Carlos Mesters, que no dia 20 completou 80 anos, destacou a relação de Jesus com a Palavra de Deus e lembrou que foi escrita para ajudar a vida. “O livro mais importante não é a bíblia, mas a vida, conforme lembra Santo Agostinho”, recordou. “Cada pessoa é uma palavra ambulante de Deus para os outros. A bíblia não foi feita para substituir a vida, mas para ajudar a entender a vida”, salientou. Segundo Carlos Mesters, “nós podemos ajudar a revelar o reino de Deus que está nas pessoas”.
Orofino, que assina o texto da conferência junto com frei Carlos, insistiu que “só pode trabalhar com a palavra, quem se deixa trabalhar pela palavra”. Ele apontou a casa, a sinagoga e o templo como espaços sagrados onde Jesus aprendeu a Palavra de Deus. “Se você quiser conhecer a Deus, olhe para Jesus. Se quiser saber como usar a Palavra de Deus na pastoral, olhe para o jeito de Jesus usar e interpretar a Palavra do Pai. Se quiser saber como fazer pastoral, olhe para Jesus, o Bom Pastor”, concluíram os biblistas.
O arcebispo de Goiânia (GO), dom Washington Cruz, presidiu a missa concelebrada por nove bispos e dezenas de padres. Em sua homilia, dom Washington comentou o evangelho proclamado na celebração, que apresentava Jesus afirmando que “mais felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. “No mundo é preciso criar espaço para a escuta da palavra. É tempo de fazer ressoar com entusiasmo e acreditar que se a vivemos, podemos criar um mundo melhor”, acrescentou dom Washington.
Duas conferências marcaram o segundo dia do Congresso. Os temas “A pastoral na vida da Igreja” e “A Palavra de Deus é viva e eficaz” foram apresentados, respectivamente, pelo teólogo, padre Agenor Brighenti, e pelo bispo de Rondonópolis (MT), dom Juventino Kestering.
Padre Agenor acentuou o momento de crise por que passa o mundo ocidental que, segundo ele, “deve-se à crise da modernidade, do projeto civilizacional moderno, responsável pelas maiores conquistas para a humanidade, mas, ao mesmo tempo, pelas maiores frustrações da história”.
Para Dom Juventino Kestering “falar de ‘Pastoral na vida da Igreja: uma nova compreensão de Pastoral num mundo em mudança’ é resgatar e atualizar a dinâmica da pastoral para que ela seja ‘viva e eficaz’”. Segundo o bispo de Rondonópolis, a Palavra de Deus é “viva para responder aos anseios, às buscas, às necessidades dos homens e das mulheres de hoje” e “eficaz porque o homem e a mulher modernos já não suportam algo que não tem significado e nem se sente atraído a aquilo que não é eficaz”.
O primeiro passo da pastoral que se fundamenta na Palavra de Deus e se deixa iluminar por ela, “será conhecer a Palavra e acolhê-la”, acrescentou. Dom Juventino defendeu a necessidade de uma renovação pastoral para uma animação bíblica da pastoral. “Falar em renovação pastoral necessariamente exige adentrar na eclesiologia de participação, em todos os níveis; pensar em paróquias descentralizadas e missionárias, onde os leigos e as leigas, junto com seus pastores, realizam sua vocação”, explicou.
A Palavra de Deus vivida e celebrada foi o tema desenvolvido pela biblista e professora Irmã Lúcia Weiler. Ela apontou a criação e a libertação como dois marcos celebrativos e enumerou dez “estacas ou indicadores de momentos celebrativos da caminhada do povo de Deus”.
Segundo a irmã a inspiração das dez “estacas” vem do profeta Jeremias, “que convida o povo a celebrar a volta do Exilio e hoje nos convida a entrar no mesmo caminho”.
As estacas são: o credo do povo de Deus; os salmos; a leitura profética da história; a leitura sapiencial da história; o cântico de Maria no encontro com Isabel; da tentação à oração e missão; a reconciliação; a celebração da despedida de Jesus; a madrugada do novo dia, o primeiro da semana e a Palavra vivida e celebrada nas comunidades cristãs nascentes, geradas no Espírito.
O biblista e professor de Ciências da Religião, Valmor da Silva, apresentou o tema “A Palavra preparada”. “A intenção é destacar como a palavra de Deus ilumina a vida do povo de Deus, na perspectiva da animação bíblica de toda a pastoral”, explicou o biblista.
Valmor desenvolveu seu tema lembrando, em primeiro lugar, as comparações que a bíblia faz da Palavra de Deus. Neste sentido, o biblista recordou que a Palavra é como “chuva que fecunda a terra, fogo que queima por dentro, luz que ilumina a caminhada, espada afiada que corta, atleta que corre veloz, alimento que sacia e remédio que cura”.
O conferencista destacou, ainda, que “a Palavra anima a vida toda”. Segundo ele, “o Primeiro Testamento é um celeiro repleto de material sobre a animação bíblica da pastoral e da vida como um todo”. “A palavra anima não apenas a formação religiosa, litúrgica, ou a catequese específica, mas ela conforma toda a vida cidadã, na família, na escola e na sociedade, em todos os seus setores. É onde a palavra e a própria vida se fundem como uma realidade única”, disse Valmor.
A biblista Mercedes de Budallés Diez, que é assessora do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), mostrou a passagem da pastoral bíblica para a animação bíblica partindo do Concílio Vaticano II até os dias atuais.
Já a doutoranda em teologia bíblica, irmã Maria Aparecida Barboza, mostrou a evolução da pastoral bíblica para uma animação bíblica no Brasil. “A redescoberta da Bíblia e o seu uso constante por todas as Igrejas Cristãs no Brasil, tem sido um marco significativo no crescimento da experiência da fé das comunidades espalhadas pelo nosso País”, frisou irmã Cida, como é mais conhecida.
“Estamos diante de um novo e desafiador, mas providencial, momento na nossa ação evangelizadora na Igreja: a Animação Bíblica da Pastoral”. A afirmação é do presidente da Comissão Episcopal Pastoral para Animação Bíblico-catequética e arcebispo de Pelotas (RS), dom Jacinto Bergmann. Segundo dom Jacinto, a Igreja precisa superar limites “de uma pastoral da cristandade” e implantar “corajosamente” uma pastoral de comunhão e orgânica e que responda às necessidades dos fiéis “conforme as exigências do mundo de hoje”.
Dom Jacinto apontou três funções da animação bíblica da pastoral: ser caminho de conhecimento e interpretação da palavra de Deus; ser caminho de comunhão e oração da palavra e ser caminho de evangelização e proclamação da palavra.
“A animação bíblica da pastoral, com estas três funções, satisfaz a permanente necessidade dos discípulos missionários de Jesus Cristo de nutrir-se com o Pão da Palavra de Deus mediante o conhecimento e a interpretação adequada dos textos bíblicos, de seu emprego como mediação de diálogo com Jesus Cristo e como alma da própria evangelização e do anúncio de Jesus Cristo a todos”, disse, citando o Documento de Aparecida.
Implementação da animação bíblica da pastoral
A formadora do Centro Bíblico para América Latina (Cebipal), Katiuska Cáceres, indicou caminhos de organização e implementação da animação bíblica da pastoral. “A animação bíblica quer que a Palavra de Deus que a Sagrada Escritura transmite, seja – na pastoral orgânica da Igreja – a seiva e o coração que torna realidade o encontro com Jesus Cristo em todas as instâncias pastorais”, salientou Katiuska.
Dom Jacinto na missa de encerramento do Congresso comentou o trecho da carta de São Paulo aos Romanos, chamando o apóstolo de “grande animador bíblico da pastoral do tempo e da terra dos gentios”. Parafraseando o apóstolo, o arcebispo exortou os congressistas a não terem vergonha do evangelho de Cristo. “Nós, os animadores bíblicos da pastoral do nosso tempo, em mudança de época, a partir desse congresso, não nos envergonhamos da palavra de Deus, pois ela é força salvadora de Deus para todo aquele que crê”.
O arcebispo se mostrou animado com o resultado do Congresso cujo objetivo principal ele resumiu com os verbos "entender, construir juntos e assumir" a animação bíblica da pastoral. “Conseguimos adentrar bem na compreensão do que seja a animação bíblica da pastoral”, afirmou.
Estamos diante de uma nova primavera da Palavra, um novo e desafiador momento na nossa ação evangelizadora na Igreja: a “Animação Bíblica da Pastoral”.
Catequistas, agentes das mais variadas pastorais, religiosas, religiosos, padres, bispos de todas as regiões do Brasil participaram de 8 a 11 de outubro, em Goiânia, do I Congresso Brasileiro de Animação Bíblica da Pastoral. Realizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), através da Comissão Episcopal Pastoral para Animação Bíblico-pastoral, e pela Sociedade de Catequetas Latino-americanos (SCALA), o Congresso reuniu 500 pessoas.
O presidente da Comissão Episcopal Pastoral para Animação Bíblico-catequética da CNBB e arcebispo de Pelotas (RS), dom Jacinto Bergmann abriu o Congresso destacando a importância da Palavra de Deus na vida da Igreja. Segundo o arcebispo, a bíblia deve nutrir a vocação e a missão de todo discípulo missionário. “Trata-se de compreender que a Palavra de Deus é a alma, o coração de toda pastoral, de toda ação evangelizadora da Igreja”, disse.
Dom Jacinto recordou os objetivos do Congresso. “Precisamos com coragem entender, construir e assumir uma viva e eficaz animação bíblica da pastoral. Isto é, tornar a palavra de Deus a alma da Igreja”, acentuou. De acordo com dom Jacinto, a Igreja, nos cinco continentes, “respira a grande inspiração de uma animação bíblica da pastoral”.
"A Igreja num mundo em mudança". Este foi o tema que abriu o ciclo de debates do Congresso. O tema foi apresentado pelo teólogo, padre Joel Portella. Segundo padre Joel, o fenômeno da mudança de época, que caracteriza os tempos atuais, não é específico da Igreja Católica, nem de uma região do planeta. A mobilidade e a provisoriedade são características dos novos tempos. “O caráter desconcertante da atual mudança de época decorre da radicalidade com que os critérios se transformaram e estão se transformando”.
Ele defende que estas mudanças não são “de todo negativas”, mas também “momentos muito propícios para o crescimento pessoal e comunitário”. Padre Joel destacou, ainda, que o cristianismo é marcado pela mobilidade. “Quando nos voltamos, de modo orante, para a Escritura Sagrada, encontramos um fio condutor de mobilidade”, esclareceu, lembrando o Novo Testamento onde se diz que o “Filho do Homem não tendo onde reclinar a cabeça (Mt 8,20), andando de cidade em cidade (Lc 4,43) enviando os discípulos na mesma situação, sem muitos apoios ou condições de estagnação (Lc 10,4)”.
Os biblistas frei Carlos Mesters e Francisco Orofino animaram os 500 participantes do Congresso com a conferência “Jesus, Palavra encarnada, Palavra anunciada”.
Reconhecido pela linguagem simples e pelas histórias que usa para explicar a bíblia, frei Carlos Mesters, que no dia 20 completou 80 anos, destacou a relação de Jesus com a Palavra de Deus e lembrou que foi escrita para ajudar a vida. “O livro mais importante não é a bíblia, mas a vida, conforme lembra Santo Agostinho”, recordou. “Cada pessoa é uma palavra ambulante de Deus para os outros. A bíblia não foi feita para substituir a vida, mas para ajudar a entender a vida”, salientou. Segundo Carlos Mesters, “nós podemos ajudar a revelar o reino de Deus que está nas pessoas”.
Orofino, que assina o texto da conferência junto com frei Carlos, insistiu que “só pode trabalhar com a palavra, quem se deixa trabalhar pela palavra”. Ele apontou a casa, a sinagoga e o templo como espaços sagrados onde Jesus aprendeu a Palavra de Deus. “Se você quiser conhecer a Deus, olhe para Jesus. Se quiser saber como usar a Palavra de Deus na pastoral, olhe para o jeito de Jesus usar e interpretar a Palavra do Pai. Se quiser saber como fazer pastoral, olhe para Jesus, o Bom Pastor”, concluíram os biblistas.
O arcebispo de Goiânia (GO), dom Washington Cruz, presidiu a missa concelebrada por nove bispos e dezenas de padres. Em sua homilia, dom Washington comentou o evangelho proclamado na celebração, que apresentava Jesus afirmando que “mais felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. “No mundo é preciso criar espaço para a escuta da palavra. É tempo de fazer ressoar com entusiasmo e acreditar que se a vivemos, podemos criar um mundo melhor”, acrescentou dom Washington.
Duas conferências marcaram o segundo dia do Congresso. Os temas “A pastoral na vida da Igreja” e “A Palavra de Deus é viva e eficaz” foram apresentados, respectivamente, pelo teólogo, padre Agenor Brighenti, e pelo bispo de Rondonópolis (MT), dom Juventino Kestering.
Padre Agenor acentuou o momento de crise por que passa o mundo ocidental que, segundo ele, “deve-se à crise da modernidade, do projeto civilizacional moderno, responsável pelas maiores conquistas para a humanidade, mas, ao mesmo tempo, pelas maiores frustrações da história”.
Para Dom Juventino Kestering “falar de ‘Pastoral na vida da Igreja: uma nova compreensão de Pastoral num mundo em mudança’ é resgatar e atualizar a dinâmica da pastoral para que ela seja ‘viva e eficaz’”. Segundo o bispo de Rondonópolis, a Palavra de Deus é “viva para responder aos anseios, às buscas, às necessidades dos homens e das mulheres de hoje” e “eficaz porque o homem e a mulher modernos já não suportam algo que não tem significado e nem se sente atraído a aquilo que não é eficaz”.
O primeiro passo da pastoral que se fundamenta na Palavra de Deus e se deixa iluminar por ela, “será conhecer a Palavra e acolhê-la”, acrescentou. Dom Juventino defendeu a necessidade de uma renovação pastoral para uma animação bíblica da pastoral. “Falar em renovação pastoral necessariamente exige adentrar na eclesiologia de participação, em todos os níveis; pensar em paróquias descentralizadas e missionárias, onde os leigos e as leigas, junto com seus pastores, realizam sua vocação”, explicou.
A Palavra de Deus vivida e celebrada foi o tema desenvolvido pela biblista e professora Irmã Lúcia Weiler. Ela apontou a criação e a libertação como dois marcos celebrativos e enumerou dez “estacas ou indicadores de momentos celebrativos da caminhada do povo de Deus”.
Segundo a irmã a inspiração das dez “estacas” vem do profeta Jeremias, “que convida o povo a celebrar a volta do Exilio e hoje nos convida a entrar no mesmo caminho”.
As estacas são: o credo do povo de Deus; os salmos; a leitura profética da história; a leitura sapiencial da história; o cântico de Maria no encontro com Isabel; da tentação à oração e missão; a reconciliação; a celebração da despedida de Jesus; a madrugada do novo dia, o primeiro da semana e a Palavra vivida e celebrada nas comunidades cristãs nascentes, geradas no Espírito.
O biblista e professor de Ciências da Religião, Valmor da Silva, apresentou o tema “A Palavra preparada”. “A intenção é destacar como a palavra de Deus ilumina a vida do povo de Deus, na perspectiva da animação bíblica de toda a pastoral”, explicou o biblista.
Valmor desenvolveu seu tema lembrando, em primeiro lugar, as comparações que a bíblia faz da Palavra de Deus. Neste sentido, o biblista recordou que a Palavra é como “chuva que fecunda a terra, fogo que queima por dentro, luz que ilumina a caminhada, espada afiada que corta, atleta que corre veloz, alimento que sacia e remédio que cura”.
O conferencista destacou, ainda, que “a Palavra anima a vida toda”. Segundo ele, “o Primeiro Testamento é um celeiro repleto de material sobre a animação bíblica da pastoral e da vida como um todo”. “A palavra anima não apenas a formação religiosa, litúrgica, ou a catequese específica, mas ela conforma toda a vida cidadã, na família, na escola e na sociedade, em todos os seus setores. É onde a palavra e a própria vida se fundem como uma realidade única”, disse Valmor.
A biblista Mercedes de Budallés Diez, que é assessora do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), mostrou a passagem da pastoral bíblica para a animação bíblica partindo do Concílio Vaticano II até os dias atuais.
Já a doutoranda em teologia bíblica, irmã Maria Aparecida Barboza, mostrou a evolução da pastoral bíblica para uma animação bíblica no Brasil. “A redescoberta da Bíblia e o seu uso constante por todas as Igrejas Cristãs no Brasil, tem sido um marco significativo no crescimento da experiência da fé das comunidades espalhadas pelo nosso País”, frisou irmã Cida, como é mais conhecida.
“Estamos diante de um novo e desafiador, mas providencial, momento na nossa ação evangelizadora na Igreja: a Animação Bíblica da Pastoral”. A afirmação é do presidente da Comissão Episcopal Pastoral para Animação Bíblico-catequética e arcebispo de Pelotas (RS), dom Jacinto Bergmann. Segundo dom Jacinto, a Igreja precisa superar limites “de uma pastoral da cristandade” e implantar “corajosamente” uma pastoral de comunhão e orgânica e que responda às necessidades dos fiéis “conforme as exigências do mundo de hoje”.
Dom Jacinto apontou três funções da animação bíblica da pastoral: ser caminho de conhecimento e interpretação da palavra de Deus; ser caminho de comunhão e oração da palavra e ser caminho de evangelização e proclamação da palavra.
“A animação bíblica da pastoral, com estas três funções, satisfaz a permanente necessidade dos discípulos missionários de Jesus Cristo de nutrir-se com o Pão da Palavra de Deus mediante o conhecimento e a interpretação adequada dos textos bíblicos, de seu emprego como mediação de diálogo com Jesus Cristo e como alma da própria evangelização e do anúncio de Jesus Cristo a todos”, disse, citando o Documento de Aparecida.
Implementação da animação bíblica da pastoral
A formadora do Centro Bíblico para América Latina (Cebipal), Katiuska Cáceres, indicou caminhos de organização e implementação da animação bíblica da pastoral. “A animação bíblica quer que a Palavra de Deus que a Sagrada Escritura transmite, seja – na pastoral orgânica da Igreja – a seiva e o coração que torna realidade o encontro com Jesus Cristo em todas as instâncias pastorais”, salientou Katiuska.
Dom Jacinto na missa de encerramento do Congresso comentou o trecho da carta de São Paulo aos Romanos, chamando o apóstolo de “grande animador bíblico da pastoral do tempo e da terra dos gentios”. Parafraseando o apóstolo, o arcebispo exortou os congressistas a não terem vergonha do evangelho de Cristo. “Nós, os animadores bíblicos da pastoral do nosso tempo, em mudança de época, a partir desse congresso, não nos envergonhamos da palavra de Deus, pois ela é força salvadora de Deus para todo aquele que crê”.
O arcebispo se mostrou animado com o resultado do Congresso cujo objetivo principal ele resumiu com os verbos "entender, construir juntos e assumir" a animação bíblica da pastoral. “Conseguimos adentrar bem na compreensão do que seja a animação bíblica da pastoral”, afirmou.
Estamos diante de uma nova primavera da Palavra, um novo e desafiador momento na nossa ação evangelizadora na Igreja: a “Animação Bíblica da Pastoral”.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Aquí estou. Envia-me!
Descobrir o que uma pessoa quer ser na vida forma parte das aventuras mais fascinantes do mundo e, muitas vezes, vai acompanhado de medo e não poucas dificuldades. Vejamos como conta o profeta Isaias o seu descobrimento de um acontecimento tão marcante na vida dele. Podemos ler o capítulo 6 do livro de este profeta genial(Is 6,1-13).
Estamos no ano 740 a. C. e Isaias tem uns 20 anos. Essa é a data mais provável para essa visão de Isaias que nos narra sua vocação-missão, não ao começo como Jeremias (1,1-19), mas já avançado o livro. O relato define a missão do profeta e põe a questão da conversão ou não dos destinatários da palavra profética. A morte de Ozias coincide com a entronização de seu filho Joatam, de quem se dizem coisas tão negativas (em 2 Rs 15,32-35 ou em 2 Cr 27,1-9), como de seu sucessor Acaz (2 Rs 16; 2 Cr 28). Esse é o contexto da profecia de Isaias, onde ele vai atuar. A profecia tem sempre lugar e hora, um contexto vital.
Isaias narra a visão de Javé sentado num trono alto e elevado, quer dizer, com os traços de um rei, em posição de seu exercício de poder. O profeta conta uma experiência transcendental na sua vida e na história da profecia. Destaca a majestuosidade de Deus, sentado no seu trono, rodeado de seus ministros e cobrindo o templo com a orla de seu manto. A designação de Deus como o Senhor é significativa com outras cenas em que Isaias terá que falar a um rei.
Podemos destacar três partes: a teofania (1-5); a sagração ou purificação (6-7), e a missão (8-13). Na primeira parte aparece outra chave de leitura da visão nas expressões de plenitude: o manto enche o templo, a glória de Javé enche a terra, a fumaça enche o templo. No centro está a expressão da plenitude da glória, que expressa fama/exaltação, peso/carga/energia e ao mesmo tempo esplendor: algo luminoso, sobretudo nas manifestações de Deus. Contrasta a plenitude do começo da visão com o “vazio” do final.
Serafins estão de pé, por cima do personagem que está sentado, indicando assim sua posição de serviço e entoam o tríplice “santo” que não é tanto uma invocação á santidade e virtude de Javé, quanto à sua exclusividade para Israel: é um Deus diferente daquele dos outros povos e reservado/consagrado a seu povo, um Deus “especial” para Israel (Croatto). Já desde 1,4 e 5,19 até o final (60,9.14) o livro de Isaias usará esse título divino como um dos seus eixos de sentido. A “santidade / exclusividade” de Javé exige a fidelidade absoluta de Israel para com Ele. Este é um tema fundamental para Isaias. Aqui se mostra como expressão fundamental de uma teologia que constitui o núcleo da mensagem de Isaias, e ordena a atitude que se exige diante de Deus, o Santo de Israel (fórmula que se encontra 11 vezes na primeira parte de Isaias e 13 na segunda, assim como em Jr 50,29; 51,5 ou nos Sl 71,22; 78,41; 89,19). A teologia da santidade de Deus, que exige a do povo, reaparecerá com Ezequiel, em Isaias 40-55 e em certas tradições sacerdotais conservadas em Jerusalém (cf. Levítico 17-26).
O Deus de Israel é chamado “Deus dos Exércitos”. O término evoca os exércitos de Israel em ordem de batalha; depois, como em Deuteronômio 4,19, designa as constelações ou elementos que constituem o universo organizado. A glória é, às vezes, utilizada como doxologia nos Salmos (Sl 72,19).
O segundo cenário (vv. 5-7) mostra a reação de Isaias diante da visão, e o rito de purificação e sagração de sua boca, que está destinada a falar a palavra de Deus. Isaias confessa ser uma pessoa de lábios impuros em meio de um povo de lábios impuros. Somente Isaias é purificado, logo será a palavra do profeta que invitará à conversão do povo, para que torne ao Senhor. Temos um grande contraste, o profeta de lábios impuros diz que viu o rei, Javé Sebaot. O viu, porém, está chamado a viver, a profetizar, não a morrer. Ver o Senhor ajuda a viver de uma maneira nova. Um serafim leva a cabo a purificação com uma brasa da boca, representando a pessoa toda. O profeta experimenta uma purificação com fogo! E sua culpa lhe foi tirada e seu pecado perdoado, antecipo do que o Senhor quer realizar com seu povo.
A terceira cena (vv. 8-10), não é de visão, mas de audição. Escuta a voz do Senhor que convida a ir, a pôr-se em pé de missão da parte de Deus. O profeta é o “porta-voz” de Deus, leva sempre sua palavra e fala com a mesma autoridade de Deus, por isso usa a expressão “oráculo”, ou “palavra do Senhor” cada vez que se dirige ao povo.
Aqui estou: envia-me!
Vejamos o chamado de Isaias a partir de outros relatos de vocação-missão. Em contraste com Moisés (Ex 3-4), Isaias responde imediatamente. Moisés duvida, apresentando mil desculpas para não aceitar a missão. Jeremias (capítulo 1), também indica sua falta de idoneidade: não saber falar, indicando a qualidade principal para poder realizar a missão. Jacob passa toda uma noite de luta até o sol raiar. Cada pessoa responde ao chamado de Deus desde o mais íntimo da sua personalidade.
Na resposta de Isaias à missão ressoa a disponibilidade de Samuel (1 Sm 3,1-21), a obediência e prontidão de fazer a vontade do orante do Salmo 40,7-11 que logo a Carta aos Hebreus aplicará à obediência total e radical de Jesús à vontade do Pai (Hb 10,5-7); ressoa também a “servicialidade incondicional” de Maria em cumprir a Palavra do Senhor (Lc 1,38); igualmente ressoa a generosidade de Pedro e dos outros discípulos: “nós deixamos tudo e te seguimos”; e, finalmente, evoca a resposta dos primeiros discípulos que encontramos nos Evangelhos como modelo de resposta diante da chamada-missão de todo cristão (Mc 1,16-20;18-22; Lc 5,1-11).
O profeta é chamado a profetizar a esse povo que parece fazer referência a algumas pessoas com responsabilidade, os dirigentes, especialmente os de Jerusalém.
O profeta anuncia a mensagem a esse povo, mas a resposta é negativa, expressada na fórmula: “Escutem com os ouvidos, mas não entendam; olhem com os olhos, mas não compreendam!”. A incapacidade de “entender - compreender” é a atitude básica criticada por essa mensagem do profeta. Quer dizer, tanto Isaias, como Ezequiel (“não te escutarão porque não querem escutar”: Ez 3,4-9) mostram a má vontade para escutar Javé. A fórmula de Isaias é como um trocadilho que poderíamos traduzir desta maneira: Não há pior surdo que aquele que não quer escutar, e não há pior cego que aquele que não quer ver. Quer dizer, a missão de Isaias vai fracassar porque não vão querer escutar a sua mensagem. Mesmo assim o profeta leva adiante a sua missão até o fim, como tantos na América Latina que tombaram no cumprimento da sua missão. Segundo a tradição, Isaias teria sido morto sendo cortado pela metade com uma serra.
BIBLIOGRAFIA:
ABREGO DE LACY J. M., Los libros proféticos, IEB 4, Estella, Verbo divino 2001, pp.117-118.
ALONSO SCHOEKEL L. – SICRE J. L., Profetas. I. Isaías- Jeremías, Madrid, Cristiandad 1980, pp. 139-142.
CROATTO Severino, Isaías. Vol. I: 1,39. O profeta da justiça e da fidelidade, São Paulo - Petrópolis, Metodista-Sinodal-Vozes 1989, pp.57-62.
JUNCO GARZA Carlos, Palabra sin fronteras. Los profetas de Israel, México, San Pablo 32007.
sábado, 3 de setembro de 2011
APARECIDA E A ANIMAÇÃO BÍBLICA DA PASTORAL
247. Encontramos Jesus na Sagrada Escritura, lida na Igreja. A Sagrada Escritura, “Palavra de Deus escrita por inspiração do Espírito Santo”, é, com a Tradição, fonte de vida para a Igreja e alma de sua ação evangelizadora. Desconhecer a Escritura é desconhecer Jesus Cristo e renunciar a anunciá-lo. Daí o convite de Bento XVI: “Ao iniciar a nova etapa que a Igreja missionária da América Latina e do Caribe se dispõe a empreender, a partir desta V Conferência em Aparecida, é condição indispensável o conhecimento profundo e vivencial da Palavra de Deus, Por isso, é necessário educar o povo na leitura e na meditação da Palavra: que ela se converta em seu alimento para que, por experiência própria, vejam que as palavras de Jesus são espírito e vida (cf. Jo 6,63). Do contrário, como vão anunciar uma mensagem cujo conteúdo e espírito não conhecem profundamente? É preciso fundamentar nosso compromisso missionário e toda a nossa vida na rocha da Palavra de Deus”.
248. Faz-se, pois, necessário propor aos fiéis a Palavra de Deus como dom do Pai para o encontro com Jesus Cristo vivo, caminho de “autêntica conversão e de renovada comunhão e solidariedade”.
Essa proposta será mediação de encontro com o Senhor se for apresentada a Palavra revelada, contida na Escritura, como fonte de evangelização. Os discípulos de Jesus desejam alimentar-se com o Pão da Palavra: querem chegar à interpretação adequada dos textos bíblicos, empregá-los como mediação de diálogo com Jesus Cristo, e a que sejam alma da própria evangelização e do anúncio de Jesus a todos. Por isso, a importância de uma “pastoral bíblica”, entendida como animação bíblica da pastoral, que seja escola de interpretação ou conhecimento da Palavra, de comunhão com Jesus ou oração com a Palavra, e de evangelização inculturada ou de proclamação da Palavra. Isso exige, da parte dos bispos, presbíteros, diáconos e ministros leigos da Palavra, uma aproximação à Sagrada Escritura que não seja só intelectual e instrumental, mas com coração “faminto de ouvir a Palavra do Senhor” (Am 8,11).
249. Entre as muitas formas de se aproximar da Sagrada Escritura existe uma privilegiada à qual todos somos convidados: a Lectio divina ou exercício de leitura orante da Sagrada Escritura.
Essa leitura orante, bem praticada, conduz ao encontro com Jesus-Mestre, ao conhecimento do mistério de Jesus-Messias, à comunhão com Jesus-Filho de Deus e ao testemunho de Jesus-Senhor do universo. Com seus quatro momentos (leitura, meditação, oração, contemplação), a leitura orante favorece o encontro pessoal com Jesus Cristo semelhante ao modo de tantos personagens do evangelho: Nicodemos e sua ânsia de vida eterna (cf. Jo 3,1-21), a Samaritana e seu desejo de culto verdadeiro (cf. Jo 4,1-42), o cego de nascimento e seu desejo de luz interior (cf. Jo 9), Zaqueu e sua vontade de ser diferente (cf. Lc 19,1-10)... Todos eles, graças a esse encontro, foram iluminados e recriados porque se abriram à experiência da misericórdia do Pai que se oferece por sua Palavra de verdade e vida. Não abriram o coração para algo do Messias, mas ao próprio Messias, caminho de crescimento na “maturidade conforme a sua plenitude” (Ef 4,13), processo de Discipulado, de comunhão com os irmãos e de compromisso com a sociedade.
O DOM DA LIBERDADE
Deus colocou em teu coração
uma tocha
acesa de beleza e sabedoria;
tristeza é
apagar esta tocha e abafá-la
nas cinzas.
Deus te deu um espírito
com asas
para vagares pelo espaço
do amor e da liberdade.
Não é loucura
podar as asas com as próprias mãos
e tolerar
que a alma rasteje por terra
como um verme?
Kahlil Gibran
uma tocha
acesa de beleza e sabedoria;
tristeza é
apagar esta tocha e abafá-la
nas cinzas.
Deus te deu um espírito
com asas
para vagares pelo espaço
do amor e da liberdade.
Não é loucura
podar as asas com as próprias mãos
e tolerar
que a alma rasteje por terra
como um verme?
Kahlil Gibran
terça-feira, 30 de agosto de 2011
APOCALIPSE: A ALEGRIA DE SERMOS PROFETAS (III)
4. DICAS PARA LER O APOCALIPSE
O livro que temos em mãos vai dirigido às sete igrejas (1,4.11). Trás a visão inaugural , as sete mensagens proféticas que o Senhor Ressuscitado dirige “pessoalmente” ao anjo de cada uma das sete igrejas (1,9-3,22), e todo o resto do livro as tem como pano de fundo.
1. Sete Bem-aventuranças estruturam toda a construção chamando a atenção aos destinatários para entender que tipo de obra tem nas mãos (1,3; 14,13; 16,15; 19,9; 20,6; 22,7; 22,14).
2. Sete mensagens proféticas são dirigidas a cada um dos sete anjos das sete igrejas (ver capítulos 2-3)
3. Sete promessas ao Vencedor ao final de cada mensagem profética (2,7.11.17.26; 3,5.12.21 (2x)) e logo no resto do livro aparece o sentido e o chamado a vencer: 5,5; 6,2; 11,7; 12,11; 13,7; 15,2; 17,14; 21,7 (total: 17 vezes): ¡O Apocalipse, a pesar de tudo, é um livro de VITÓRIA!
4. Sete Advertências a escutar: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”: 2,7.11.17.29; 3,6.13.22.
5. Também há chamadas de atenção ou avisos fortes que iniciam com um Ai, e que encontramos em: 8,13(3x); 9,12(2x); 11,14(2x); 12,12; 18,10(2x); 18,16(2x); 18,19 (2x) (total: 14 vezes).
6. Não faltam ameaças e castigos: agora bem, fiquemos de olho para os destinatários: É bom não trocar uns pelos outros: o resultado seria uma brincadeira pesada!
7. No primeiro capítulo temos a visão do Ressuscitado que, como farol, ilumina todo o livro do Apocalipse: 1,9-20. No capítulo 4: O Símbolo central: O que está sentado no TRONO. Capítulo 5: O CORDERO DEGOLADO E EM PÉ!
8. O LIVRO selado com sete selos e que só o Cordeiro pode abrir. Sete trombetas tocarão (juízo sobre a história) e a tarefa de PROFETIZAR: o livro aberto que o profeta deve comer! (Ap 10,8-11).
9. A luta do Dragão e da Mulher (capítulo 12). A Besta (13,1-10) e a pequena besta (13,11-18). Sete Copas da ira de Deus e seus destinatários... (cap. 15-16).
10. A grande Prostituta – Babilônia e a sua queda clamorosa (17-19) e a derrota do Dragão (20,1-15).
11. A Esposa do Cordeiro e o casamento do Cordeiro (19,5-9). O livro conclui com a Nova Jerusalém (Ap 21-22), cidade contraposta à Babilônia, onde a Vida cresce por todo canto, e a luz brilha nela, pois se encontra o trono de Deus e do Cordeiro, e não faltará a luz da lâmpada nem a luz do sol, porque o Senhor Deus os ilumina: “A cidade não precisa que o sol a ilumine nem a luz, porque a glória de Deus a ilumina, e sua lâmpada é o Cordeiro. Á sua luz caminharão as nações, e os reis ao seu esplendor” (21,23-24).
5. BIBLIOGRAFÍA
ALEGRE X., El Apocalipsisde Juan, en TUÑI Josep Oriol- X. ALEGRE,Escritos joánicos y cartas paulinas, IEB 8, Estella, Verbo Divino, 1995 (existe tradução em português).
ARENS Eduardo – DIAZ MATEOS Manuel, O Apocalipse. A força da esperança. Estudo, leitura e comentário, São Paulo, Loyola, 2004.
José BORTOLINI, Como ler o Apocalipse. Resistir e denunciar, São Paulo, Paulus, 31994.
GRUPO DE REFLEXÃO DA CRB, O sonho do povo de Deus. As comunidades e o movimento apocalíptico, Rio de Janeiro - São Paulo, CRB- Publicações/1996 – Loyola, 1996.
HOWARD- BROOK Wes – GWYTHER Anthony, Desmascarando o imperialismo. Interpretação do Apocalipse ontem e hoje, São Paulo, Loyola – Paulus, 2003.
Carlos MESTERS, Esperança de um povo que luta. O Apocalipse de são João, uma chave de leitura, São Paulo, Paulus.
MESTERS Carlos – OROFINO F., Apocalipse de são João. A teimosia da fé dos pequenos, Petrópolis, Vozes, 2002.
MESTERS Carlos – OROFINO F., Apocalipse de João. Esperança, Coragem e Alegria. Círculos Bíblicos, São Leopoldo – São Paulo, CEBI – Paulus, 2002.
PRÉVOST Jean- Pierre, Para leer el Apocalipsis, Estella, Verbo Divino, 1994.
PRIGENT Pierre, O Apocalipse, São Paulo, Loyola, 1993.
RIBLA, Apocalipse de João e a mística do milênio, 34 (1999). Número monográfico.
RICHARD Pablo, Apocalipse. Reconstrução da esperança, Vozes, Petrópolis, 1996.
SCHÜSSLER FIORENZA Elisabeth, Apocalipsis. Visión de um mundo justo, Estella, Verbo Divino, 1997.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
APOCALIPSE: A ALEGRIA DE SERMOS PROFETAS (II)
2. CHAVES DE LEITURA DO APOCALIPSE
1. Apocalipse, diário e cancioneiro de resistência. O Apocalipse é um escrito de luta no qual Deus vai escrevendo a Vida: Ap 4,4-11; 5,8-14; 11,15-18; 12,10-12; 14,2-3; 15,2-8; 16,5-7; 19,1-8; 21,3-7.
2. Apocalipse, livro profético de denúncia radical: Com expressões simbólicas, e imagens reais e radicais que exigem uma leitura no contexto no qual aparecem! Há capítulos muito significativos onde a lógica da Vida e a lógica da Morte se enfrentam e é necessário fazer uma escolha (12-13; 13,10.18; 17-18).
3. Apocalipse, memória da celebração da Vida (1,16) e da Vitória (19,1-4) de todas aquelas pessoas que creem na Força do “Cordeiro degolado e em pé” (5,16), O Vivente que tem em sua mão as “sete estrelas” e está sentado no trono de seu Pai (3,21) e é o único capaz de tomar o livro e abrir os selos, quer dizer, é capaz de interpretar toda a história da humanidade desde o começo até o final: ¡Alfa e Ômega! (1,8; 21,6: 22,13).
4. Apocalipse é um quebra-cabeça do AT: simbolismo.
A linguajem simbólica é claramente sublinhada pelos comentaristas que se adentram neste oceano de luz e esplendor. Xavier Alegre comenta que a linguajem simbólica é um dos traços mais específicos da literatura apocalíptica e contribui a convertê-la numa literatura cifrada. Em Ap as imagens estão tomadas, frequentemente, do AT. Se temos em conta as citações e as alusões ao AT, “Apocalipse poderia ser visto como um quebra-cabeça do AT”.
5. Apocalipse, revelação do testemunho profético da comunidade até as últimas consequências, como Antipas, João de Patmos e a Testemunha fiel e fidedigna (1,5).
6. Apocalipse, promessa de felicidade. Sete bem-aventuranças se escondem em seu seio, como pilares fortes que sustentam todo o edifício: 1,3; 14,13; 16,15; 19,9; 20,6; 22,7.14.
7. Apocalipse, livro da urgente Justiça: Até quando, Senhor? (6,10-11) proclamam insistentemente os mártires pedindo justiça. Neles ecoa o grito das comunidades crucificadas ao longo da história: “Eles gritaram em alta voz: «Senhor santo e verdadeiro, até quando tardarás em fazer justiça, vingando o nosso sangue contra os habitantes da terra?» Então foi dada a cada um deles uma veste branca. Também foi dito a eles que descansassem mais um pouco de tempo, até que ficasse completo o número de seus companheiros e irmãos, que iriam ser mortos como eles” (6,10-11), e encontra a resposta no Rosto daquele que foi Degolado como Cordeiro e AGORA está DE PÉ (5,6).
Os seguidores do Cordeiro sabem muito bem de quem se trata, e todo aquele que o sabe, encontra também força e motivos para crer, resistir e esperar no meio da tribulação (1,9; 2,9.10.22; 7,14). Aí está escondida a força vigorosa deste livro “profético” (1,3; 11,6; 19,10; 22,7.10.18.19), “evangelho eterno” (14,6) para enfrentar a tribulação, a perseguição e se for preciso até a mesma morte como Antipas (2,13) e tantos outros (7,14-17), “por que a esperança não morre jamais!” (Dom Avelar, bispo de Salvador).
8. Apocalipse, livro da teimosa Esperança do mandacaru: 2,7.11.17.26; 3,5.12.21.
Propomos ler o Apocalipse desde o começo até o final, seguindo as pistas narrativas que nos vai colocando a cada passo. Não é suficiente lê-lo uma só vez para familiarizar-se e ter sintonia com as imagens e os símbolos mais significativos do Apocalipse, entrando assim realmente no miolo da sua mensagem.
É necessário ter presentes as chaves de leitura que o mesmo Autor nos oferece desde o título-prólogo, onde faz uma síntese do caminho que quer fazer percorrer aos leitores de ontem e de hoje.
Assim, seguindo passo a passo as suas dicas compreenderemos as diferentes situações que descreve a partir dos contextos culturais, sociais, políticos e religioso-teológicos. Do contrario, corremos o risco de ficarmos na casca, sem saborear o fruto que está dentro e sem chegar a captar a raiz, a Espiritualidade que anima cada página desta obra fascinante e maravilhosa dirigida as Sete Igrejas da Ásia e ao mesmo tempo à Igreja de todos os tempos e lugares: para descobrir qual é a Revelação de Jesus Cristo e suscitar Resistência, perseverança e confiança na Vitoria do Senhor Ressuscitado provocando a esperança com o mesmo grito de alegria da Esposa e do Espírito que dizem: ¡VEM, SENHOR, JESUS! (22,17-21).
3. ESTRUTURA GLOBAL DO APOCALIPSE (Pablo Richard).
Prólogo e saudação (tempo presente): 1,1-8
A) 1,9-3,22: Visão apocalíptica da Igreja
B) 4,1-8,1: Visão profética da história
C) 8,2-11,19: as trombetas (releitura do Êxodo)
CENTRO: 12,1-15,4: a comunidade cristã entre as Bestas
C´) 15,5-16,21: as taças (releitura do Êxodo)
B´) 17,1-19,10: visão profética da história
A´) 19,11-22,5 visão apocalíptica do futuro
Epílogo (tempo presente): 22,6-21
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