“É preciso fundamentar nosso compromisso missionário e toda a nossa vida na rocha da Palavra de Deus” (Doc. Aparecida 247)
terça-feira, 13 de março de 2012
Milton Schwantes: profeta do diálogo ecumênico
Por Justino Martínez Pérez
Milton nasceu a 26 de abril de 1946 em Tapera, no Rio Grande do Sul e morreu em São Paulo o dia primeiro de março de 2012.
Encontrei Milton várias vezes na caminhada bíblica latino-americana a partir daquele encontro em Salvador de Bahia sobre o profeta Habacuc. Foi a primeira vez e foi algo surpreendente. Numa tarde de trabalho apresentou o profeta Habacuc e de um jeito todo especial. Fiquei encantado: tudo era fácil, simples, compreensível. Dir-se-ia que não havia dificuldades nem problemas.
A partir de então foram várias as ocasiões que partilhamos juntos. No Curso Intensivo de Bíblia em 1993 em Santiago do Chile, veio para participar da avaliação dos primeiros três meses de curso e para assessorar a semana sobre os eixos do Pentateuco. Quando Milton chegou a Santiago a turma, enfrentando o clima e a poluição de Santiago, estava bastante cansada e o coordenador do curso queria aumentar mais uma tarde de trabalho, pois, segundo ele, era muita matéria e o tempo relativamente curto.
O pessoal não queria nem saber, mas o coordenador insistia. Milton, que devia começar a primeira semana da segunda parte, disse que ele não precisava de mais tempo para expor a sua matéria. Limitou-se a convidar três pessoas para preparar uma dinâmica para o primeiro momento de oração. Naquele encontro descobri uma coisa interessante. Milton sabia ir ao essencial e atingir o objetivo da maneira mais simples e com uma palavra ou uma expressão definia a coisa mais complexa, e passava logo a outra coisa sem perder tempo. Era lúcido nas analises e diagnósticos e necessitava poucas palavras para ir ao essencial. Lembro que ao colocar os vários eixos do Pentateuco descobri que a partir do terceiro dia ele já tinha colocado o essencial de um modo descontraído. O resto era introdução e comentário.
De Santiago guardo também uma definição de animação bíblica que dava Milton: a animação bíblica deve passar pelos fios domésticos do trabalho de grupo. Essa ideia iluminou muitas situações na minha caminhada em anos posteriores. Foi uma convicção que se fez realidade e foi comprovada muitas vezes na década seguinte.
Em Santiago tive oportunidade de acompanhar Milton na livraria. Como em tantas outras viagens, ele voltava carregado de novos materiais para sua Bibliografia Bíblica Latino-americana. Eram livros técnico-científicos, e outros materiais mais populares. Tudo tinha espaço nesse coração apaixonado pela animação bíblica a serviço dos pobres e das comunidades cristãs.
O Prof. Dr. Milton Schwantes, renomeado teólogo, biblista, professor e pastor luterano, graduou-se em teologia pela Escola Superior de Teologia (1970), São Leopoldo/RS; Doutor em Bíblia/AT pela Universidade de Heidelberg (Alemanha); e Doutor Honoris Causa pela Universidade de Marburgo (Alemanha 2002). Desde 1988 exercia como professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). E sua atuação docente esteve concentrada na área de Bíblia/AT em exegese, teologia bíblica, arqueologia do Antigo Oriente e ugarítico.
Quando Milton Schwantes retornou ao Brasil, em agosto de 1974, foi indicado pelo Conselho Diretor da IECLB para atuar como pastor em Cunha Porã/SC. Nessa atividade, foi pastor querido por seus paroquianos. Pequeno exemplo de sua atividade foi a publicação do caderno Sementes. A linguagem simples e vigorosa fala de cristãos como sal da terra, do “meu povo” de Miquéias: o povo humilde e humilhado, as camadas mais pobres da população, e apela para que a Igreja Luterana volte seus olhos para os desvalidos. Com outros colegas, participou de elaboração de material para a catequese. Os pastores do então Distrito Uruguai da IECLB tinham sua própria editora: A Publicadora Uruguai (PU), e a série de suas publicações era designada de Cadernos do Povo. Ao lado destas publicações, desde 1977 publicava também, regularmente, auxílios homiléticos na série Proclamar Libertação. Milton participou destas atividades até julho de 1978, quando veio o convite para ser professor na Faculdade de Teologia da IECLB, em São Leopoldo, hoje Escola Superior de Teologia (EST).
Milton passaria a ser professor de Antigo Testamento. A teologia bíblica que o ocupava desde os tempos da tese de doutorado, a experiência feita em Cunha Porã e os contatos ecumênicos faziam-no acentuar a dimensão profética do ministério pastoral e do ser do professor de Teologia Bíblica. Por isso, pediu para não residir no Morro do Espelho, sede das instituições da IECLB, em São Leopoldo, mas no Bairro São Borja, em casa simples. Queria fazer teologia no diálogo com os vizinhos, gente simples. A solidariedade com pastores e pastoras que atuavam em condições difíceis fê-lo optar pelo mesmo salário recebido por eles e elas, desistindo de um abono concedido aos professores de Teologia.
A época era a da colocação de sinais. Sinal também foi colocado em sua preleção inaugural, expressão utilizada para a conferência pública com a qual a instituição Faculdade de Teologia apresentava seus novos professores. A conferência levou por título “Natã precisa de Davi”. O título sugestivo gerou polêmica e muita reflexão. Polêmicas foram também as preleções e seminários dirigidos pelo novo professor, que logo soube atrair a atenção e o carinho dos estudantes. Em pouco tempo, o exegeta ficaria conhecido além das fronteiras da pequena Igreja Luterana e começaria a dar sua contribuição para o estudo da Bíblia que se intensificava em todo o continente latino-americano.
Milton concretizou teologia sobre a terra. Procurou tornar a Verdade concreta. A Verdade sempre é concreta, como é concreta a Verdade que liberta. Os explorados, exilados e oprimidos, para os quais foi formulada, muito lhe devem. Pobres, afrodescendentes, povos indígenas e mulheres que hoje andam de cabeça erguida muito devem às teologias formuladas em contexto.
Os testemunhos sobre Milton se poderiam contar aos milhares, pois tantos eram os contatos que ele tinha na Europa e América Latina. Vejamos alguns.
"Ficamos sem mais um profeta", lembra Adeodata Maria dos Anjos, atual diretora nacional do CEBI, "sua voz silenciou, mas continuará ecoando e transformando corações".
"Voltado à leitura popular da Bíblia, Milton Schwantes foi um teólogo de vanguarda e um dos biblistas mais reconhecidos em todo o país, ao lado de Carlos Mesters e de todo o grupo do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI)", afirma o professor da EST, Dr. Roberto Zwetsch.
Ex-aluno de Schwantes nas Faculdades EST e na Universidade Metodista de São Paulo, o professor Dr. Flávio Schmitt disse que a IECLB perdeu o testemunho de um cristão comprometido com a causa do Evangelho, incansável na defesa dos valores proferidos pelos profetas do Antigo Testamento. "Como professor e como grande amigo, Milton Schwantes foi uma pessoa que transcendeu qualquer fronteira étnica, racial ou geográfica, conseguindo se comunicar com o mundo através do ensino da Palavra de Deus", sublinhou Flávio.
No entanto, a parte de todos seus grandes méritos acadêmicos, e de sua relevante contribuição na caminhada bíblica latino-americana, o mais importante e relevante em Milton Schwantes é o testemunho que nos deixou como ser humano e como irmão na fé. Uma pessoa que dedicou toda sua vida ao estudo e ao ensino bíblico; uma pessoa que contagiou a todos seus colegas, amigos e amigas, alunos e alunas com sua maneira de ser e com sua alegria e otimismo em relação à vida; uma pessoa que ensinou a ver e ler a Bíblia com os olhos do povo; mas, além de tudo isso, uma pessoa que não apenas ensinou Bíblia, mas que ajudou a formar uma nova geração de biblistas latino-americanos, e em diálogo e junto com outros relevantes biblistas, criou uma verdadeira escola bíblica ecumênica na América Latina.
Milton: amigo, mestre, profeta..., muito nos ensinou. Ele sabia descomplicar as coisas e torna-las mais simples. Milton tinha a magia do diálogo ecumênico e sabia encantar com a Palavra de Deus. Agora, do outro lado desta vida, na Vida plena verá as coisas de modo novo e definitivo com aquela alegria que ele sempre soube partilhar.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Rodeias-me de cantos de libertação. Espiritualidade dos Salmos
A editora Claret de Barcelona acaba de publicar o livro de Justino Martínez Pérez: M´embolcalles amb cants d´alliberament. Espiritualitat dels Salms, Claret, Barcelona 2012 (Rodeias-me de cantos de libertação. Espiritualidade dos Salmos).
O Autor mostra que muitas personas se aproximaram dos Salmos e encontraram um manancial onde refrescar sua sede de vida e esperança. Essa experiência realizada em grupo na Escola de Animação Bíblica em Barcelona durante três anos mostrou-se surpreendente e maravilhosa.
Os Salmos nos falam da fidelidade, bondade e misericórdia infinita de Deus. Os Salmos nos fazem sentir todo o ritmo da vida, e por isso o salmista sente que a música lhe rodeia, que lhe protege a mão de Deus e exulta na ação de graças e em cânticos de libertação (Sl 32,7).
O salmista, na sua gramática da existência, conjuga todos os sentimentos pessoais e comunitários na súplica, no louvor e na ação de graças, predominando, sobretudo, os salmos de súplica, pessoal ou comunitária.
A finalidade de nosso livro sobre os Salmos é como dar uma carga de esperança (1 Pd 3,15) a nosso mundo que parece que tem os caminhos cortados, com as asas repregadas, sem ilusão, ou ao mais, ousa sonhar um voo de galinha: curto, baixo e rasante, ou tende a não ver mais horizonte que aquilo que traz proveito e interesses a curto prazo, esquecendo os pobres, aqueles que não contam, ou sofrem.
Nós cremos, porém, que a partir da experiência da Palavra de Deus que o salmista nos apresenta de mil maneiras e por seu impulso outro mundo é possível. Podemos - claro que sim!- sonhar um mundo novo a partir da Palavra criadora de Deus.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
BÍBLIA: SENTIR TODO O RITMO DA VIDA
Você, começou a surfar? Continue. Se não começou, está na hora! Vamos aprofundar o livro de Jó. Como ele, as pessoas ficam confusas, diante do sofrimento do justo, e se perguntam: existe uma resposta? Existe. Jó mostra caminhos novos de resistência e de encontro com Deus, um modo de sentir todo o ritmo da vida.
Jó: uma história com final feliz
Vamos passear pelo livro de Jó. Se eu tivesse que falar para crianças contaria assim. "Era uma vez um homem... chamado Jó. O país dele se chamava Hus. Jó era um homem justo, amava a Deus e evitava fazer coisas ruins. Tinha sete filhos e três filhas. Possuía muitas ovelhas, bois, camelos, cavalos. Era o rei do gado. Era o mais rico de todos. Era um cara legal!
As coisas começaram a ir mal e perdeu tudo. Jó procurava entender o recado Deus e dizia: Deus deu, Deus tirou. Bendito seja Deus!
Mesmo perdendo tudo, não se queixava com Deus, com o destino ou com a sorte dele. Depois de muitas provas, Deus encheu de bens a casa dele e dobrou tudo o que tinha no começo e vivia feliz, coberto de anos em companhia dos filhos e filhas, e dos netos".
– Gostaram da história?
– Gostamos. É uma história linda, com final feliz!
– Vamos ler juntos. Está no livro de Jó, capítulo primeiro e segundo. E nós, feito crianças, depois de ler os dois primeiros capítulos, vamos pular alguns capítulos... até chegar ao capítulo 42. É só ler o capítulo 42, do versículo 10 a 17.
Vamos ao teatro
Os entendidos dizem que alguém encontrou essa história e aproveitou para debater o tema: o sofrimento do inocente. O que fez? Pegou as pontas do começo e do fim. Esticou... e no meio encaixou do capítulo 3 ate 42,9. Simples e criativo!
Podemos imaginar que estamos no teatro. As luzes apagadas, uma luz tênue na sala, música de fundo, o narrador entra em ação... "Era uma vez... um homem chamado Jó, da terra de Hus. Jó era íntegro e reto, temia a Deus e evitava o mal..." e continua narrando. O sofrimento se abate sobre ele. Perde tudo o que tem inclusive os filhos, cai doente e acaba num monte de lixo. A única coisa que lhe sobra é um caco para coçar as feridas (Jó 2,7-8). A própria esposa o aconselha de amaldiçoar a Deus. Mesmo assim Jó permanece fiel (Jó 1,20; 2,9-10) até que chegam três amigos que, diante do enorme sofrimento, ficam sem palavras. Todo o mundo está em silêncio, acompanhando um homem na dor. Silêncio, dor, silêncio... por sete dias e sete noites!
O narrador sai. Começa o debate. Na cabeça fica o tema e o roteiro que nos entregaram na entrada: Prólogo (cap. 1-2) e Conclusão (42,7-16). Diálogo entre Jó e seus amigos (3-27). Elogio da Sabedoria (28). Discurso de Jó (29-31). Discursos de Eliú (32-37). Diálogo entre Jó e Deus (38 até 42,6).
O grito e a teimosia de Jó
Ainda na escuridão, percebemos as silhuetas de Jó e seus amigos. De repente se escuta um grito no meio do silêncio de uma semana e de uma vida de desespero. Alguém grita. Não dá para reconhecer o rosto (Jó 2,12). Abre a boca e amaldiçoa o dia de seu nascimento (Jó 3,1). Estamos acompanhando uma pessoa que está na amargura (3,20) e "vive sem paz, sem tranquilidade e sem descanso, em contínuo sobressalto" (Jó 3,26). Nesse rosto desfigurado, como aquele que retrata Isaías (Is 52,13-53,12), contemplamos a dor dos pobres, de homens e mulheres de ontem e de hoje.
O drama está aí. Um zé-ninguém... Uma mulher que morre na porta do hospital, uma criança que dorme debaixo das marquises, um idoso... de repente começa a gritar, a questionar sábios, teólogos, agentes de pastoral... Quer até discutir com Deus. Essa pessoa tem nome: Jó, do país de Hus. É um estrangeiro. Não pertence ao povo de Israel.
– E foi acolhido em Israel?
– Foi! Jó é um livro sapiencial. Entra no time de pessoas respeitadas "pela sua prática da justiça".
– De onde você tirou isso?
– Do profeta Ezequiel (14,14.20). Daniel, Noé e Jó, pela prática da justiça agradaram a Deus! E a carta de Tiago (5,11) considera Jó como os profetas que perseveraram com paciência histórica, firmes até o fim.
– O livro de Jó é profético?
– É sapiencial, mas o tom de voz é da casa da profecia! Jó, como Jeremias, grita "maldito o dia do nascimento!". As duas únicas vezes que aparece na Bíblia. O sofrimento era tão grande! Jó grita a própria dor e denuncia o sofrimento e a exploração dos fracos. Defende o direito dos pobres e das viúvas. O capítulo 24 é uma amostra da coragem e teimosia de Jó. É o grito profético de todos os excluídos na garganta de Jó.
Os três amigos devem ter levado um susto. A plateia está envolvida no desenrolar do drama. Alguém gritou o que todos sentimos, mas que ninguém tinha a coragem de dizer em voz alta!
Jó questiona o modo de pensar da época. O sofrimento era visto como castigo de Deus. Todo sofredor era pecador. Jó luta contra esse modo de refletir que, para defender a Deus, conta mentiras sobre a vida humana (Jó 13,7). Ele fala com coragem: O sofrimento não é castigo de Deus! Este é um critério-chave para interpretar o livro de Jó.
O diálogo entre Jó e Elifaz, Baldad e Sofar se desenvolve em três cenas: 1ª cena: cap. 3-11; 2ª: cap. 12-20; 3ª: cap. 21-27. Temos três rodadas de discursos. Começa Jó, responde Elifaz; fala Jó, responde Baldad; continua Jó, responde Sofar. E assim por três vezes seguidas. Há nove colocações de Jó e três de cada amigo, menos na última rodada onde Sofar não intervém. A fala de Jó é muito maior e a mais importante!
O esquema é repetitivo. Não se avança. Para concertar tudo, se programa uma nova reunião! É o que fazem os amigos de Jó. Mostram a pobreza de seus argumentos. Jó, porém, não se repete e questiona tudo!
Na segunda parte do livro, entra um quarto personagem: Eliú. Traz um pacote de quatro discursos: capítulos 32 a 37. A ideia original que propõe é uma teoria "pedagógica" do sofrimento.
Um novo rosto de Deus
Deus não é monopólio de ninguém! Quando alguém diz "isto é Deus", estamos na porta do palavrão ou da idolatria. Jó protesta, justamente! Lembremos a reflexão sobre Deus de Santo Agostinho. Ele alerta para uma identificação apressada de Deus: "Olha, se entendes, não é Deus! Se entendes, não é realmente Deus!" viu? Ouviu?
O debate com Jó terminou num empate técnico ou num fracasso total. Os amigos não conseguem convencer a Jó, e não saem convencidos de que ele tenha razão. A discussão não soluciona o problema.
Continua o diálogo. Estamos na parte mais alta da obra. Deus, provocado por Jó, é o único que tem uma palavra a dizer sobre o abismo do mal. Por isso, o próprio Deus entra na conversa com dois discursos (Jó 38-41). No primeiro, Deus responde a Jó e o questiona, descrevendo a sabedoria divina, espalhada pelo Universo (Jó 38-39). Entre os dois discursos, se encaixa uma breve confissão da pequenez de Jó 40,3-5. Deus continua falando sobre o modo de governar e de seu poder criador, lutando contra o mal e a injustiça, capaz de dominar as forças do mal (40,6-41,26)
Antes de fechar o pano, Jó diz a última palavra. Nesse testemunho de Jó e na sentença de Deus, o autor nos entrega a chave para entender e avaliar o debate. Vale a pena lermos a conclusão: "Eu falei, sem entender, de maravilhas que superam a minha compreensão. Tu disseste: 'Escute-me, porque vou falar. Vou interrogá-lo, e você me responderá'. Eu te conhecia por ouvir falar de ti, mas agora meus olhos te viram. Por isso me retrato e me arrependo sobre o pó e a cinza" (Jó 42,3-6).
O teatro acabou. Reaparece o narrador para contar o fim da história. Deus mesmo se dirige a Elifaz: "Estou irritado contra você e seus dois amigos, porque vocês não falaram corretamente de mim como falou o meu servo Jó. Vão até o meu servo Jó... ele intercederá por vocês. Em atenção a ele, eu não os tratarei como a insensatez de vocês merece, porque vocês não falaram corretamente de mim, como falou o meu servo Jó".
Todo aquele que estava torcendo por Elifaz, Baldad e Sofar (de Eliú não se fala no fim) recebe agora a resposta de Deus. É interessante confrontar o começo da vida de Jó (cap.1) e o final da história.
Veja as diferenças e a novidade que traz a conclusão. Só aparentemente se parece com o início. Jó procura o rosto de Deus, por caminhos inéditos e em momento nenhum aceita um Deus feito a imagem do homem. A partir da vida e da experiência, descobre e fala do rosto vivo de Deus, sempre novo, como o sol de cada dia. Jó, como Jesus, nos convida a passar de conhecer a Deus "de ouvidas" a "contemplá-Lo com os próprios olhos!" Um desafio e tanto!
Jó: uma história com final feliz
Vamos passear pelo livro de Jó. Se eu tivesse que falar para crianças contaria assim. "Era uma vez um homem... chamado Jó. O país dele se chamava Hus. Jó era um homem justo, amava a Deus e evitava fazer coisas ruins. Tinha sete filhos e três filhas. Possuía muitas ovelhas, bois, camelos, cavalos. Era o rei do gado. Era o mais rico de todos. Era um cara legal!
As coisas começaram a ir mal e perdeu tudo. Jó procurava entender o recado Deus e dizia: Deus deu, Deus tirou. Bendito seja Deus!
Mesmo perdendo tudo, não se queixava com Deus, com o destino ou com a sorte dele. Depois de muitas provas, Deus encheu de bens a casa dele e dobrou tudo o que tinha no começo e vivia feliz, coberto de anos em companhia dos filhos e filhas, e dos netos".
– Gostaram da história?
– Gostamos. É uma história linda, com final feliz!
– Vamos ler juntos. Está no livro de Jó, capítulo primeiro e segundo. E nós, feito crianças, depois de ler os dois primeiros capítulos, vamos pular alguns capítulos... até chegar ao capítulo 42. É só ler o capítulo 42, do versículo 10 a 17.
Vamos ao teatro
Os entendidos dizem que alguém encontrou essa história e aproveitou para debater o tema: o sofrimento do inocente. O que fez? Pegou as pontas do começo e do fim. Esticou... e no meio encaixou do capítulo 3 ate 42,9. Simples e criativo!
Podemos imaginar que estamos no teatro. As luzes apagadas, uma luz tênue na sala, música de fundo, o narrador entra em ação... "Era uma vez... um homem chamado Jó, da terra de Hus. Jó era íntegro e reto, temia a Deus e evitava o mal..." e continua narrando. O sofrimento se abate sobre ele. Perde tudo o que tem inclusive os filhos, cai doente e acaba num monte de lixo. A única coisa que lhe sobra é um caco para coçar as feridas (Jó 2,7-8). A própria esposa o aconselha de amaldiçoar a Deus. Mesmo assim Jó permanece fiel (Jó 1,20; 2,9-10) até que chegam três amigos que, diante do enorme sofrimento, ficam sem palavras. Todo o mundo está em silêncio, acompanhando um homem na dor. Silêncio, dor, silêncio... por sete dias e sete noites!
O narrador sai. Começa o debate. Na cabeça fica o tema e o roteiro que nos entregaram na entrada: Prólogo (cap. 1-2) e Conclusão (42,7-16). Diálogo entre Jó e seus amigos (3-27). Elogio da Sabedoria (28). Discurso de Jó (29-31). Discursos de Eliú (32-37). Diálogo entre Jó e Deus (38 até 42,6).
O grito e a teimosia de Jó
Ainda na escuridão, percebemos as silhuetas de Jó e seus amigos. De repente se escuta um grito no meio do silêncio de uma semana e de uma vida de desespero. Alguém grita. Não dá para reconhecer o rosto (Jó 2,12). Abre a boca e amaldiçoa o dia de seu nascimento (Jó 3,1). Estamos acompanhando uma pessoa que está na amargura (3,20) e "vive sem paz, sem tranquilidade e sem descanso, em contínuo sobressalto" (Jó 3,26). Nesse rosto desfigurado, como aquele que retrata Isaías (Is 52,13-53,12), contemplamos a dor dos pobres, de homens e mulheres de ontem e de hoje.
O drama está aí. Um zé-ninguém... Uma mulher que morre na porta do hospital, uma criança que dorme debaixo das marquises, um idoso... de repente começa a gritar, a questionar sábios, teólogos, agentes de pastoral... Quer até discutir com Deus. Essa pessoa tem nome: Jó, do país de Hus. É um estrangeiro. Não pertence ao povo de Israel.
– E foi acolhido em Israel?
– Foi! Jó é um livro sapiencial. Entra no time de pessoas respeitadas "pela sua prática da justiça".
– De onde você tirou isso?
– Do profeta Ezequiel (14,14.20). Daniel, Noé e Jó, pela prática da justiça agradaram a Deus! E a carta de Tiago (5,11) considera Jó como os profetas que perseveraram com paciência histórica, firmes até o fim.
– O livro de Jó é profético?
– É sapiencial, mas o tom de voz é da casa da profecia! Jó, como Jeremias, grita "maldito o dia do nascimento!". As duas únicas vezes que aparece na Bíblia. O sofrimento era tão grande! Jó grita a própria dor e denuncia o sofrimento e a exploração dos fracos. Defende o direito dos pobres e das viúvas. O capítulo 24 é uma amostra da coragem e teimosia de Jó. É o grito profético de todos os excluídos na garganta de Jó.
Os três amigos devem ter levado um susto. A plateia está envolvida no desenrolar do drama. Alguém gritou o que todos sentimos, mas que ninguém tinha a coragem de dizer em voz alta!
Jó questiona o modo de pensar da época. O sofrimento era visto como castigo de Deus. Todo sofredor era pecador. Jó luta contra esse modo de refletir que, para defender a Deus, conta mentiras sobre a vida humana (Jó 13,7). Ele fala com coragem: O sofrimento não é castigo de Deus! Este é um critério-chave para interpretar o livro de Jó.
O diálogo entre Jó e Elifaz, Baldad e Sofar se desenvolve em três cenas: 1ª cena: cap. 3-11; 2ª: cap. 12-20; 3ª: cap. 21-27. Temos três rodadas de discursos. Começa Jó, responde Elifaz; fala Jó, responde Baldad; continua Jó, responde Sofar. E assim por três vezes seguidas. Há nove colocações de Jó e três de cada amigo, menos na última rodada onde Sofar não intervém. A fala de Jó é muito maior e a mais importante!
O esquema é repetitivo. Não se avança. Para concertar tudo, se programa uma nova reunião! É o que fazem os amigos de Jó. Mostram a pobreza de seus argumentos. Jó, porém, não se repete e questiona tudo!
Na segunda parte do livro, entra um quarto personagem: Eliú. Traz um pacote de quatro discursos: capítulos 32 a 37. A ideia original que propõe é uma teoria "pedagógica" do sofrimento.
Um novo rosto de Deus
Deus não é monopólio de ninguém! Quando alguém diz "isto é Deus", estamos na porta do palavrão ou da idolatria. Jó protesta, justamente! Lembremos a reflexão sobre Deus de Santo Agostinho. Ele alerta para uma identificação apressada de Deus: "Olha, se entendes, não é Deus! Se entendes, não é realmente Deus!" viu? Ouviu?
O debate com Jó terminou num empate técnico ou num fracasso total. Os amigos não conseguem convencer a Jó, e não saem convencidos de que ele tenha razão. A discussão não soluciona o problema.
Continua o diálogo. Estamos na parte mais alta da obra. Deus, provocado por Jó, é o único que tem uma palavra a dizer sobre o abismo do mal. Por isso, o próprio Deus entra na conversa com dois discursos (Jó 38-41). No primeiro, Deus responde a Jó e o questiona, descrevendo a sabedoria divina, espalhada pelo Universo (Jó 38-39). Entre os dois discursos, se encaixa uma breve confissão da pequenez de Jó 40,3-5. Deus continua falando sobre o modo de governar e de seu poder criador, lutando contra o mal e a injustiça, capaz de dominar as forças do mal (40,6-41,26)
Antes de fechar o pano, Jó diz a última palavra. Nesse testemunho de Jó e na sentença de Deus, o autor nos entrega a chave para entender e avaliar o debate. Vale a pena lermos a conclusão: "Eu falei, sem entender, de maravilhas que superam a minha compreensão. Tu disseste: 'Escute-me, porque vou falar. Vou interrogá-lo, e você me responderá'. Eu te conhecia por ouvir falar de ti, mas agora meus olhos te viram. Por isso me retrato e me arrependo sobre o pó e a cinza" (Jó 42,3-6).
O teatro acabou. Reaparece o narrador para contar o fim da história. Deus mesmo se dirige a Elifaz: "Estou irritado contra você e seus dois amigos, porque vocês não falaram corretamente de mim como falou o meu servo Jó. Vão até o meu servo Jó... ele intercederá por vocês. Em atenção a ele, eu não os tratarei como a insensatez de vocês merece, porque vocês não falaram corretamente de mim, como falou o meu servo Jó".
Todo aquele que estava torcendo por Elifaz, Baldad e Sofar (de Eliú não se fala no fim) recebe agora a resposta de Deus. É interessante confrontar o começo da vida de Jó (cap.1) e o final da história.
Veja as diferenças e a novidade que traz a conclusão. Só aparentemente se parece com o início. Jó procura o rosto de Deus, por caminhos inéditos e em momento nenhum aceita um Deus feito a imagem do homem. A partir da vida e da experiência, descobre e fala do rosto vivo de Deus, sempre novo, como o sol de cada dia. Jó, como Jesus, nos convida a passar de conhecer a Deus "de ouvidas" a "contemplá-Lo com os próprios olhos!" Um desafio e tanto!
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
A Palavra de Deus é Viva e Eficaz
Mensagem do Primeiro Congresso Brasileiro de Animação Bíblica da Pastoral
1. Com o coração repleto de alegria, nós, os 500 participantes do Primeiro
Congresso Brasileiro de Animação Bíblica da Pastoral, celebrado em Goiânia, de 08 a 11 de outubro de 2011, saudamos fraternalmente a toda a Igreja que está no Brasil com quem partilhamos a riqueza da Palavra de Deus experimentada nesses dias de convivência, reflexão e comunhão.
A Palavra de Deus é viva e eficaz (Hb 4,12). Por Ela, Deus se revela, se comunica, vive em nós e conosco, pois Ele se doou por completo a nós, em Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem (Jo 1,1.14). Ele é a Palavra Encarnada visível, audível, tocável, princípio de todas as coisas; Palavra salvadora, transformadora, libertadora, que ilumina, alimenta e leva a resistência na defesa integral da vida e da dignidade humana. Palavra que É e dá sentido a tudo o que somos e temos. Palavra que alimenta a fé, fortalece a esperança e concretiza o amor.
2. Nestes dias de graça, resgatamos a memória do caminho que a Palavra fez conosco e do caminho que fizemos com Ela na história. Lemos os Sinais dos Tempos nos desafios e oportunidades da civilização em mudança, na qual estamos inseridos.
Entendemos que a Animação Bíblica da Pastoral é uma dádiva de Deus, capaz de reavivar na Igreja a consciência de que a sua identidade e missão derivam da Palavra de Deus; capaz de renovar e dinamizar a vida, as estruturas e a ação da Igreja em sua totalidade.
Sentimo-nos provocados a construir, em nós e na comunidade eclesial, uma postura aberta e condizente com o divino processo transformador e revitalizador das pastorais, dos movimentos, das CEBs e das pequenas comunidades, estabelecendo inter-relação, interdependência e cooperação entre os pastores e os fiéis em todas as iniciativas pastorais, impulsionando o dinamismo, o crescimento e a irradiação dessa Palavra.
Cabe-nos agora assumir, com coragem e juntos, a tarefa de fazer acontecer a Animação Bíblica de toda a Pastoral.
3. O Papa Bento XVI alerta-nos: “Não se trata de acrescentar qualquer encontro na paróquia ou na diocese, mas de verificar que, nas atividades habituais das comunidades cristãs, nas paróquias, nas associações e nos movimentos, se tenha realmente a peito o encontro pessoal com Cristo que se comunica a nós na sua palavra. Dado que a ignorância das Escrituras é a ignorância de Cristo (São Jerônimo), então podemos esperar que a Animação Bíblica de toda a Pastoral ordinária e extraordinária levará a um maior conhecimento da pessoa de Cristo, Revelador do Pai e plenitude da Revelação divina” (VD no. 73).
4. Irmãs e irmãos invoquemos o Espírito Santo, para que nos dê, a todos nós a atitude do discípulo, que escuta para colocar em prática o que o Senhor diz, e nos dê a graça de dinamizarmos a Animação Bíblica da Pastoral. Para isso, propomos:
a) que a conversão pessoal e pastoral, solicitada pelo documento de Aparecida, seja fortemente alimentada pela leitura diária e a vivência da Palavra de Deus, priorizando o método da Leitura Orante;
b) que a iniciação à vida cristã, formando verdadeiros discípulos missionários, seja alimentada e dinamizada pela Palavra de Deus;
c) que a família e as comunidades se congreguem ao redor da Palavra de Deus e, à sua luz, reforcem as suas relações de vida e de comunhão;
d) que todas as iniciativas em nossa Igreja partam da Palavra de Deus, por ela se iluminem, se alimentem e se avaliem;
e) que todas as Igrejas Particulares invistam na formação bíblica dos leigos e leigas e na formação bíblica-pastoral dos seminaristas e dos presbíteros;
f) que a leitura das Sagradas Escrituras nos converta ao acolhimento, à convivência fraterna e à colaboração mútua de todos os cristãos promovendo um verdadeiro ecumenismo;
g) que nós, convertidos pela Palavra de Deus, sejamos agentes transformadores da sociedade, a favor dos mais necessitados, tendo em vista o Reino de Deus que também é nosso.
5. Isso exige, por parte dos bispos, dos presbíteros, dos diáconos, dos religiosos e religiosas, dos ministros da Palavra, dos agentes de pastoral e de todos os leigos e leigas uma firme decisão e um sólido compromisso que concretize a Animação Bíblica da vida e da pastoral nas nossas Igrejas particulares. Isso se realizará na medida em que a Palavra continuar o seu mistério de encarnação em cada um de nós como em Maria.
6. Que a Palavra de Deus, lâmpada para os nossos passos e luz para o nosso caminho, guie todos os esforços para que Cristo Jesus seja tudo em todos.
Goiânia, 11 de outubro de 2011.
1. Com o coração repleto de alegria, nós, os 500 participantes do Primeiro
Congresso Brasileiro de Animação Bíblica da Pastoral, celebrado em Goiânia, de 08 a 11 de outubro de 2011, saudamos fraternalmente a toda a Igreja que está no Brasil com quem partilhamos a riqueza da Palavra de Deus experimentada nesses dias de convivência, reflexão e comunhão.
A Palavra de Deus é viva e eficaz (Hb 4,12). Por Ela, Deus se revela, se comunica, vive em nós e conosco, pois Ele se doou por completo a nós, em Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem (Jo 1,1.14). Ele é a Palavra Encarnada visível, audível, tocável, princípio de todas as coisas; Palavra salvadora, transformadora, libertadora, que ilumina, alimenta e leva a resistência na defesa integral da vida e da dignidade humana. Palavra que É e dá sentido a tudo o que somos e temos. Palavra que alimenta a fé, fortalece a esperança e concretiza o amor.
2. Nestes dias de graça, resgatamos a memória do caminho que a Palavra fez conosco e do caminho que fizemos com Ela na história. Lemos os Sinais dos Tempos nos desafios e oportunidades da civilização em mudança, na qual estamos inseridos.
Entendemos que a Animação Bíblica da Pastoral é uma dádiva de Deus, capaz de reavivar na Igreja a consciência de que a sua identidade e missão derivam da Palavra de Deus; capaz de renovar e dinamizar a vida, as estruturas e a ação da Igreja em sua totalidade.
Sentimo-nos provocados a construir, em nós e na comunidade eclesial, uma postura aberta e condizente com o divino processo transformador e revitalizador das pastorais, dos movimentos, das CEBs e das pequenas comunidades, estabelecendo inter-relação, interdependência e cooperação entre os pastores e os fiéis em todas as iniciativas pastorais, impulsionando o dinamismo, o crescimento e a irradiação dessa Palavra.
Cabe-nos agora assumir, com coragem e juntos, a tarefa de fazer acontecer a Animação Bíblica de toda a Pastoral.
3. O Papa Bento XVI alerta-nos: “Não se trata de acrescentar qualquer encontro na paróquia ou na diocese, mas de verificar que, nas atividades habituais das comunidades cristãs, nas paróquias, nas associações e nos movimentos, se tenha realmente a peito o encontro pessoal com Cristo que se comunica a nós na sua palavra. Dado que a ignorância das Escrituras é a ignorância de Cristo (São Jerônimo), então podemos esperar que a Animação Bíblica de toda a Pastoral ordinária e extraordinária levará a um maior conhecimento da pessoa de Cristo, Revelador do Pai e plenitude da Revelação divina” (VD no. 73).
4. Irmãs e irmãos invoquemos o Espírito Santo, para que nos dê, a todos nós a atitude do discípulo, que escuta para colocar em prática o que o Senhor diz, e nos dê a graça de dinamizarmos a Animação Bíblica da Pastoral. Para isso, propomos:
a) que a conversão pessoal e pastoral, solicitada pelo documento de Aparecida, seja fortemente alimentada pela leitura diária e a vivência da Palavra de Deus, priorizando o método da Leitura Orante;
b) que a iniciação à vida cristã, formando verdadeiros discípulos missionários, seja alimentada e dinamizada pela Palavra de Deus;
c) que a família e as comunidades se congreguem ao redor da Palavra de Deus e, à sua luz, reforcem as suas relações de vida e de comunhão;
d) que todas as iniciativas em nossa Igreja partam da Palavra de Deus, por ela se iluminem, se alimentem e se avaliem;
e) que todas as Igrejas Particulares invistam na formação bíblica dos leigos e leigas e na formação bíblica-pastoral dos seminaristas e dos presbíteros;
f) que a leitura das Sagradas Escrituras nos converta ao acolhimento, à convivência fraterna e à colaboração mútua de todos os cristãos promovendo um verdadeiro ecumenismo;
g) que nós, convertidos pela Palavra de Deus, sejamos agentes transformadores da sociedade, a favor dos mais necessitados, tendo em vista o Reino de Deus que também é nosso.
5. Isso exige, por parte dos bispos, dos presbíteros, dos diáconos, dos religiosos e religiosas, dos ministros da Palavra, dos agentes de pastoral e de todos os leigos e leigas uma firme decisão e um sólido compromisso que concretize a Animação Bíblica da vida e da pastoral nas nossas Igrejas particulares. Isso se realizará na medida em que a Palavra continuar o seu mistério de encarnação em cada um de nós como em Maria.
6. Que a Palavra de Deus, lâmpada para os nossos passos e luz para o nosso caminho, guie todos os esforços para que Cristo Jesus seja tudo em todos.
Goiânia, 11 de outubro de 2011.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
SÓ PODE TRABALHAR COM A PALAVRA, QUEM SE DEIXA TRABALHAR PELA PALAVRA.
Dedicado a Carlos Mesters em seus 80 anos.
Catequistas, agentes das mais variadas pastorais, religiosas, religiosos, padres, bispos de todas as regiões do Brasil participaram de 8 a 11 de outubro, em Goiânia, do I Congresso Brasileiro de Animação Bíblica da Pastoral. Realizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), através da Comissão Episcopal Pastoral para Animação Bíblico-pastoral, e pela Sociedade de Catequetas Latino-americanos (SCALA), o Congresso reuniu 500 pessoas.
O presidente da Comissão Episcopal Pastoral para Animação Bíblico-catequética da CNBB e arcebispo de Pelotas (RS), dom Jacinto Bergmann abriu o Congresso destacando a importância da Palavra de Deus na vida da Igreja. Segundo o arcebispo, a bíblia deve nutrir a vocação e a missão de todo discípulo missionário. “Trata-se de compreender que a Palavra de Deus é a alma, o coração de toda pastoral, de toda ação evangelizadora da Igreja”, disse.
Dom Jacinto recordou os objetivos do Congresso. “Precisamos com coragem entender, construir e assumir uma viva e eficaz animação bíblica da pastoral. Isto é, tornar a palavra de Deus a alma da Igreja”, acentuou. De acordo com dom Jacinto, a Igreja, nos cinco continentes, “respira a grande inspiração de uma animação bíblica da pastoral”.
"A Igreja num mundo em mudança". Este foi o tema que abriu o ciclo de debates do Congresso. O tema foi apresentado pelo teólogo, padre Joel Portella. Segundo padre Joel, o fenômeno da mudança de época, que caracteriza os tempos atuais, não é específico da Igreja Católica, nem de uma região do planeta. A mobilidade e a provisoriedade são características dos novos tempos. “O caráter desconcertante da atual mudança de época decorre da radicalidade com que os critérios se transformaram e estão se transformando”.
Ele defende que estas mudanças não são “de todo negativas”, mas também “momentos muito propícios para o crescimento pessoal e comunitário”. Padre Joel destacou, ainda, que o cristianismo é marcado pela mobilidade. “Quando nos voltamos, de modo orante, para a Escritura Sagrada, encontramos um fio condutor de mobilidade”, esclareceu, lembrando o Novo Testamento onde se diz que o “Filho do Homem não tendo onde reclinar a cabeça (Mt 8,20), andando de cidade em cidade (Lc 4,43) enviando os discípulos na mesma situação, sem muitos apoios ou condições de estagnação (Lc 10,4)”.
Os biblistas frei Carlos Mesters e Francisco Orofino animaram os 500 participantes do Congresso com a conferência “Jesus, Palavra encarnada, Palavra anunciada”.
Reconhecido pela linguagem simples e pelas histórias que usa para explicar a bíblia, frei Carlos Mesters, que no dia 20 completou 80 anos, destacou a relação de Jesus com a Palavra de Deus e lembrou que foi escrita para ajudar a vida. “O livro mais importante não é a bíblia, mas a vida, conforme lembra Santo Agostinho”, recordou. “Cada pessoa é uma palavra ambulante de Deus para os outros. A bíblia não foi feita para substituir a vida, mas para ajudar a entender a vida”, salientou. Segundo Carlos Mesters, “nós podemos ajudar a revelar o reino de Deus que está nas pessoas”.
Orofino, que assina o texto da conferência junto com frei Carlos, insistiu que “só pode trabalhar com a palavra, quem se deixa trabalhar pela palavra”. Ele apontou a casa, a sinagoga e o templo como espaços sagrados onde Jesus aprendeu a Palavra de Deus. “Se você quiser conhecer a Deus, olhe para Jesus. Se quiser saber como usar a Palavra de Deus na pastoral, olhe para o jeito de Jesus usar e interpretar a Palavra do Pai. Se quiser saber como fazer pastoral, olhe para Jesus, o Bom Pastor”, concluíram os biblistas.
O arcebispo de Goiânia (GO), dom Washington Cruz, presidiu a missa concelebrada por nove bispos e dezenas de padres. Em sua homilia, dom Washington comentou o evangelho proclamado na celebração, que apresentava Jesus afirmando que “mais felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. “No mundo é preciso criar espaço para a escuta da palavra. É tempo de fazer ressoar com entusiasmo e acreditar que se a vivemos, podemos criar um mundo melhor”, acrescentou dom Washington.
Duas conferências marcaram o segundo dia do Congresso. Os temas “A pastoral na vida da Igreja” e “A Palavra de Deus é viva e eficaz” foram apresentados, respectivamente, pelo teólogo, padre Agenor Brighenti, e pelo bispo de Rondonópolis (MT), dom Juventino Kestering.
Padre Agenor acentuou o momento de crise por que passa o mundo ocidental que, segundo ele, “deve-se à crise da modernidade, do projeto civilizacional moderno, responsável pelas maiores conquistas para a humanidade, mas, ao mesmo tempo, pelas maiores frustrações da história”.
Para Dom Juventino Kestering “falar de ‘Pastoral na vida da Igreja: uma nova compreensão de Pastoral num mundo em mudança’ é resgatar e atualizar a dinâmica da pastoral para que ela seja ‘viva e eficaz’”. Segundo o bispo de Rondonópolis, a Palavra de Deus é “viva para responder aos anseios, às buscas, às necessidades dos homens e das mulheres de hoje” e “eficaz porque o homem e a mulher modernos já não suportam algo que não tem significado e nem se sente atraído a aquilo que não é eficaz”.
O primeiro passo da pastoral que se fundamenta na Palavra de Deus e se deixa iluminar por ela, “será conhecer a Palavra e acolhê-la”, acrescentou. Dom Juventino defendeu a necessidade de uma renovação pastoral para uma animação bíblica da pastoral. “Falar em renovação pastoral necessariamente exige adentrar na eclesiologia de participação, em todos os níveis; pensar em paróquias descentralizadas e missionárias, onde os leigos e as leigas, junto com seus pastores, realizam sua vocação”, explicou.
A Palavra de Deus vivida e celebrada foi o tema desenvolvido pela biblista e professora Irmã Lúcia Weiler. Ela apontou a criação e a libertação como dois marcos celebrativos e enumerou dez “estacas ou indicadores de momentos celebrativos da caminhada do povo de Deus”.
Segundo a irmã a inspiração das dez “estacas” vem do profeta Jeremias, “que convida o povo a celebrar a volta do Exilio e hoje nos convida a entrar no mesmo caminho”.
As estacas são: o credo do povo de Deus; os salmos; a leitura profética da história; a leitura sapiencial da história; o cântico de Maria no encontro com Isabel; da tentação à oração e missão; a reconciliação; a celebração da despedida de Jesus; a madrugada do novo dia, o primeiro da semana e a Palavra vivida e celebrada nas comunidades cristãs nascentes, geradas no Espírito.
O biblista e professor de Ciências da Religião, Valmor da Silva, apresentou o tema “A Palavra preparada”. “A intenção é destacar como a palavra de Deus ilumina a vida do povo de Deus, na perspectiva da animação bíblica de toda a pastoral”, explicou o biblista.
Valmor desenvolveu seu tema lembrando, em primeiro lugar, as comparações que a bíblia faz da Palavra de Deus. Neste sentido, o biblista recordou que a Palavra é como “chuva que fecunda a terra, fogo que queima por dentro, luz que ilumina a caminhada, espada afiada que corta, atleta que corre veloz, alimento que sacia e remédio que cura”.
O conferencista destacou, ainda, que “a Palavra anima a vida toda”. Segundo ele, “o Primeiro Testamento é um celeiro repleto de material sobre a animação bíblica da pastoral e da vida como um todo”. “A palavra anima não apenas a formação religiosa, litúrgica, ou a catequese específica, mas ela conforma toda a vida cidadã, na família, na escola e na sociedade, em todos os seus setores. É onde a palavra e a própria vida se fundem como uma realidade única”, disse Valmor.
A biblista Mercedes de Budallés Diez, que é assessora do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), mostrou a passagem da pastoral bíblica para a animação bíblica partindo do Concílio Vaticano II até os dias atuais.
Já a doutoranda em teologia bíblica, irmã Maria Aparecida Barboza, mostrou a evolução da pastoral bíblica para uma animação bíblica no Brasil. “A redescoberta da Bíblia e o seu uso constante por todas as Igrejas Cristãs no Brasil, tem sido um marco significativo no crescimento da experiência da fé das comunidades espalhadas pelo nosso País”, frisou irmã Cida, como é mais conhecida.
“Estamos diante de um novo e desafiador, mas providencial, momento na nossa ação evangelizadora na Igreja: a Animação Bíblica da Pastoral”. A afirmação é do presidente da Comissão Episcopal Pastoral para Animação Bíblico-catequética e arcebispo de Pelotas (RS), dom Jacinto Bergmann. Segundo dom Jacinto, a Igreja precisa superar limites “de uma pastoral da cristandade” e implantar “corajosamente” uma pastoral de comunhão e orgânica e que responda às necessidades dos fiéis “conforme as exigências do mundo de hoje”.
Dom Jacinto apontou três funções da animação bíblica da pastoral: ser caminho de conhecimento e interpretação da palavra de Deus; ser caminho de comunhão e oração da palavra e ser caminho de evangelização e proclamação da palavra.
“A animação bíblica da pastoral, com estas três funções, satisfaz a permanente necessidade dos discípulos missionários de Jesus Cristo de nutrir-se com o Pão da Palavra de Deus mediante o conhecimento e a interpretação adequada dos textos bíblicos, de seu emprego como mediação de diálogo com Jesus Cristo e como alma da própria evangelização e do anúncio de Jesus Cristo a todos”, disse, citando o Documento de Aparecida.
Implementação da animação bíblica da pastoral
A formadora do Centro Bíblico para América Latina (Cebipal), Katiuska Cáceres, indicou caminhos de organização e implementação da animação bíblica da pastoral. “A animação bíblica quer que a Palavra de Deus que a Sagrada Escritura transmite, seja – na pastoral orgânica da Igreja – a seiva e o coração que torna realidade o encontro com Jesus Cristo em todas as instâncias pastorais”, salientou Katiuska.
Dom Jacinto na missa de encerramento do Congresso comentou o trecho da carta de São Paulo aos Romanos, chamando o apóstolo de “grande animador bíblico da pastoral do tempo e da terra dos gentios”. Parafraseando o apóstolo, o arcebispo exortou os congressistas a não terem vergonha do evangelho de Cristo. “Nós, os animadores bíblicos da pastoral do nosso tempo, em mudança de época, a partir desse congresso, não nos envergonhamos da palavra de Deus, pois ela é força salvadora de Deus para todo aquele que crê”.
O arcebispo se mostrou animado com o resultado do Congresso cujo objetivo principal ele resumiu com os verbos "entender, construir juntos e assumir" a animação bíblica da pastoral. “Conseguimos adentrar bem na compreensão do que seja a animação bíblica da pastoral”, afirmou.
Estamos diante de uma nova primavera da Palavra, um novo e desafiador momento na nossa ação evangelizadora na Igreja: a “Animação Bíblica da Pastoral”.
Catequistas, agentes das mais variadas pastorais, religiosas, religiosos, padres, bispos de todas as regiões do Brasil participaram de 8 a 11 de outubro, em Goiânia, do I Congresso Brasileiro de Animação Bíblica da Pastoral. Realizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), através da Comissão Episcopal Pastoral para Animação Bíblico-pastoral, e pela Sociedade de Catequetas Latino-americanos (SCALA), o Congresso reuniu 500 pessoas.
O presidente da Comissão Episcopal Pastoral para Animação Bíblico-catequética da CNBB e arcebispo de Pelotas (RS), dom Jacinto Bergmann abriu o Congresso destacando a importância da Palavra de Deus na vida da Igreja. Segundo o arcebispo, a bíblia deve nutrir a vocação e a missão de todo discípulo missionário. “Trata-se de compreender que a Palavra de Deus é a alma, o coração de toda pastoral, de toda ação evangelizadora da Igreja”, disse.
Dom Jacinto recordou os objetivos do Congresso. “Precisamos com coragem entender, construir e assumir uma viva e eficaz animação bíblica da pastoral. Isto é, tornar a palavra de Deus a alma da Igreja”, acentuou. De acordo com dom Jacinto, a Igreja, nos cinco continentes, “respira a grande inspiração de uma animação bíblica da pastoral”.
"A Igreja num mundo em mudança". Este foi o tema que abriu o ciclo de debates do Congresso. O tema foi apresentado pelo teólogo, padre Joel Portella. Segundo padre Joel, o fenômeno da mudança de época, que caracteriza os tempos atuais, não é específico da Igreja Católica, nem de uma região do planeta. A mobilidade e a provisoriedade são características dos novos tempos. “O caráter desconcertante da atual mudança de época decorre da radicalidade com que os critérios se transformaram e estão se transformando”.
Ele defende que estas mudanças não são “de todo negativas”, mas também “momentos muito propícios para o crescimento pessoal e comunitário”. Padre Joel destacou, ainda, que o cristianismo é marcado pela mobilidade. “Quando nos voltamos, de modo orante, para a Escritura Sagrada, encontramos um fio condutor de mobilidade”, esclareceu, lembrando o Novo Testamento onde se diz que o “Filho do Homem não tendo onde reclinar a cabeça (Mt 8,20), andando de cidade em cidade (Lc 4,43) enviando os discípulos na mesma situação, sem muitos apoios ou condições de estagnação (Lc 10,4)”.
Os biblistas frei Carlos Mesters e Francisco Orofino animaram os 500 participantes do Congresso com a conferência “Jesus, Palavra encarnada, Palavra anunciada”.
Reconhecido pela linguagem simples e pelas histórias que usa para explicar a bíblia, frei Carlos Mesters, que no dia 20 completou 80 anos, destacou a relação de Jesus com a Palavra de Deus e lembrou que foi escrita para ajudar a vida. “O livro mais importante não é a bíblia, mas a vida, conforme lembra Santo Agostinho”, recordou. “Cada pessoa é uma palavra ambulante de Deus para os outros. A bíblia não foi feita para substituir a vida, mas para ajudar a entender a vida”, salientou. Segundo Carlos Mesters, “nós podemos ajudar a revelar o reino de Deus que está nas pessoas”.
Orofino, que assina o texto da conferência junto com frei Carlos, insistiu que “só pode trabalhar com a palavra, quem se deixa trabalhar pela palavra”. Ele apontou a casa, a sinagoga e o templo como espaços sagrados onde Jesus aprendeu a Palavra de Deus. “Se você quiser conhecer a Deus, olhe para Jesus. Se quiser saber como usar a Palavra de Deus na pastoral, olhe para o jeito de Jesus usar e interpretar a Palavra do Pai. Se quiser saber como fazer pastoral, olhe para Jesus, o Bom Pastor”, concluíram os biblistas.
O arcebispo de Goiânia (GO), dom Washington Cruz, presidiu a missa concelebrada por nove bispos e dezenas de padres. Em sua homilia, dom Washington comentou o evangelho proclamado na celebração, que apresentava Jesus afirmando que “mais felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. “No mundo é preciso criar espaço para a escuta da palavra. É tempo de fazer ressoar com entusiasmo e acreditar que se a vivemos, podemos criar um mundo melhor”, acrescentou dom Washington.
Duas conferências marcaram o segundo dia do Congresso. Os temas “A pastoral na vida da Igreja” e “A Palavra de Deus é viva e eficaz” foram apresentados, respectivamente, pelo teólogo, padre Agenor Brighenti, e pelo bispo de Rondonópolis (MT), dom Juventino Kestering.
Padre Agenor acentuou o momento de crise por que passa o mundo ocidental que, segundo ele, “deve-se à crise da modernidade, do projeto civilizacional moderno, responsável pelas maiores conquistas para a humanidade, mas, ao mesmo tempo, pelas maiores frustrações da história”.
Para Dom Juventino Kestering “falar de ‘Pastoral na vida da Igreja: uma nova compreensão de Pastoral num mundo em mudança’ é resgatar e atualizar a dinâmica da pastoral para que ela seja ‘viva e eficaz’”. Segundo o bispo de Rondonópolis, a Palavra de Deus é “viva para responder aos anseios, às buscas, às necessidades dos homens e das mulheres de hoje” e “eficaz porque o homem e a mulher modernos já não suportam algo que não tem significado e nem se sente atraído a aquilo que não é eficaz”.
O primeiro passo da pastoral que se fundamenta na Palavra de Deus e se deixa iluminar por ela, “será conhecer a Palavra e acolhê-la”, acrescentou. Dom Juventino defendeu a necessidade de uma renovação pastoral para uma animação bíblica da pastoral. “Falar em renovação pastoral necessariamente exige adentrar na eclesiologia de participação, em todos os níveis; pensar em paróquias descentralizadas e missionárias, onde os leigos e as leigas, junto com seus pastores, realizam sua vocação”, explicou.
A Palavra de Deus vivida e celebrada foi o tema desenvolvido pela biblista e professora Irmã Lúcia Weiler. Ela apontou a criação e a libertação como dois marcos celebrativos e enumerou dez “estacas ou indicadores de momentos celebrativos da caminhada do povo de Deus”.
Segundo a irmã a inspiração das dez “estacas” vem do profeta Jeremias, “que convida o povo a celebrar a volta do Exilio e hoje nos convida a entrar no mesmo caminho”.
As estacas são: o credo do povo de Deus; os salmos; a leitura profética da história; a leitura sapiencial da história; o cântico de Maria no encontro com Isabel; da tentação à oração e missão; a reconciliação; a celebração da despedida de Jesus; a madrugada do novo dia, o primeiro da semana e a Palavra vivida e celebrada nas comunidades cristãs nascentes, geradas no Espírito.
O biblista e professor de Ciências da Religião, Valmor da Silva, apresentou o tema “A Palavra preparada”. “A intenção é destacar como a palavra de Deus ilumina a vida do povo de Deus, na perspectiva da animação bíblica de toda a pastoral”, explicou o biblista.
Valmor desenvolveu seu tema lembrando, em primeiro lugar, as comparações que a bíblia faz da Palavra de Deus. Neste sentido, o biblista recordou que a Palavra é como “chuva que fecunda a terra, fogo que queima por dentro, luz que ilumina a caminhada, espada afiada que corta, atleta que corre veloz, alimento que sacia e remédio que cura”.
O conferencista destacou, ainda, que “a Palavra anima a vida toda”. Segundo ele, “o Primeiro Testamento é um celeiro repleto de material sobre a animação bíblica da pastoral e da vida como um todo”. “A palavra anima não apenas a formação religiosa, litúrgica, ou a catequese específica, mas ela conforma toda a vida cidadã, na família, na escola e na sociedade, em todos os seus setores. É onde a palavra e a própria vida se fundem como uma realidade única”, disse Valmor.
A biblista Mercedes de Budallés Diez, que é assessora do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), mostrou a passagem da pastoral bíblica para a animação bíblica partindo do Concílio Vaticano II até os dias atuais.
Já a doutoranda em teologia bíblica, irmã Maria Aparecida Barboza, mostrou a evolução da pastoral bíblica para uma animação bíblica no Brasil. “A redescoberta da Bíblia e o seu uso constante por todas as Igrejas Cristãs no Brasil, tem sido um marco significativo no crescimento da experiência da fé das comunidades espalhadas pelo nosso País”, frisou irmã Cida, como é mais conhecida.
“Estamos diante de um novo e desafiador, mas providencial, momento na nossa ação evangelizadora na Igreja: a Animação Bíblica da Pastoral”. A afirmação é do presidente da Comissão Episcopal Pastoral para Animação Bíblico-catequética e arcebispo de Pelotas (RS), dom Jacinto Bergmann. Segundo dom Jacinto, a Igreja precisa superar limites “de uma pastoral da cristandade” e implantar “corajosamente” uma pastoral de comunhão e orgânica e que responda às necessidades dos fiéis “conforme as exigências do mundo de hoje”.
Dom Jacinto apontou três funções da animação bíblica da pastoral: ser caminho de conhecimento e interpretação da palavra de Deus; ser caminho de comunhão e oração da palavra e ser caminho de evangelização e proclamação da palavra.
“A animação bíblica da pastoral, com estas três funções, satisfaz a permanente necessidade dos discípulos missionários de Jesus Cristo de nutrir-se com o Pão da Palavra de Deus mediante o conhecimento e a interpretação adequada dos textos bíblicos, de seu emprego como mediação de diálogo com Jesus Cristo e como alma da própria evangelização e do anúncio de Jesus Cristo a todos”, disse, citando o Documento de Aparecida.
Implementação da animação bíblica da pastoral
A formadora do Centro Bíblico para América Latina (Cebipal), Katiuska Cáceres, indicou caminhos de organização e implementação da animação bíblica da pastoral. “A animação bíblica quer que a Palavra de Deus que a Sagrada Escritura transmite, seja – na pastoral orgânica da Igreja – a seiva e o coração que torna realidade o encontro com Jesus Cristo em todas as instâncias pastorais”, salientou Katiuska.
Dom Jacinto na missa de encerramento do Congresso comentou o trecho da carta de São Paulo aos Romanos, chamando o apóstolo de “grande animador bíblico da pastoral do tempo e da terra dos gentios”. Parafraseando o apóstolo, o arcebispo exortou os congressistas a não terem vergonha do evangelho de Cristo. “Nós, os animadores bíblicos da pastoral do nosso tempo, em mudança de época, a partir desse congresso, não nos envergonhamos da palavra de Deus, pois ela é força salvadora de Deus para todo aquele que crê”.
O arcebispo se mostrou animado com o resultado do Congresso cujo objetivo principal ele resumiu com os verbos "entender, construir juntos e assumir" a animação bíblica da pastoral. “Conseguimos adentrar bem na compreensão do que seja a animação bíblica da pastoral”, afirmou.
Estamos diante de uma nova primavera da Palavra, um novo e desafiador momento na nossa ação evangelizadora na Igreja: a “Animação Bíblica da Pastoral”.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Aquí estou. Envia-me!
Descobrir o que uma pessoa quer ser na vida forma parte das aventuras mais fascinantes do mundo e, muitas vezes, vai acompanhado de medo e não poucas dificuldades. Vejamos como conta o profeta Isaias o seu descobrimento de um acontecimento tão marcante na vida dele. Podemos ler o capítulo 6 do livro de este profeta genial(Is 6,1-13).
Estamos no ano 740 a. C. e Isaias tem uns 20 anos. Essa é a data mais provável para essa visão de Isaias que nos narra sua vocação-missão, não ao começo como Jeremias (1,1-19), mas já avançado o livro. O relato define a missão do profeta e põe a questão da conversão ou não dos destinatários da palavra profética. A morte de Ozias coincide com a entronização de seu filho Joatam, de quem se dizem coisas tão negativas (em 2 Rs 15,32-35 ou em 2 Cr 27,1-9), como de seu sucessor Acaz (2 Rs 16; 2 Cr 28). Esse é o contexto da profecia de Isaias, onde ele vai atuar. A profecia tem sempre lugar e hora, um contexto vital.
Isaias narra a visão de Javé sentado num trono alto e elevado, quer dizer, com os traços de um rei, em posição de seu exercício de poder. O profeta conta uma experiência transcendental na sua vida e na história da profecia. Destaca a majestuosidade de Deus, sentado no seu trono, rodeado de seus ministros e cobrindo o templo com a orla de seu manto. A designação de Deus como o Senhor é significativa com outras cenas em que Isaias terá que falar a um rei.
Podemos destacar três partes: a teofania (1-5); a sagração ou purificação (6-7), e a missão (8-13). Na primeira parte aparece outra chave de leitura da visão nas expressões de plenitude: o manto enche o templo, a glória de Javé enche a terra, a fumaça enche o templo. No centro está a expressão da plenitude da glória, que expressa fama/exaltação, peso/carga/energia e ao mesmo tempo esplendor: algo luminoso, sobretudo nas manifestações de Deus. Contrasta a plenitude do começo da visão com o “vazio” do final.
Serafins estão de pé, por cima do personagem que está sentado, indicando assim sua posição de serviço e entoam o tríplice “santo” que não é tanto uma invocação á santidade e virtude de Javé, quanto à sua exclusividade para Israel: é um Deus diferente daquele dos outros povos e reservado/consagrado a seu povo, um Deus “especial” para Israel (Croatto). Já desde 1,4 e 5,19 até o final (60,9.14) o livro de Isaias usará esse título divino como um dos seus eixos de sentido. A “santidade / exclusividade” de Javé exige a fidelidade absoluta de Israel para com Ele. Este é um tema fundamental para Isaias. Aqui se mostra como expressão fundamental de uma teologia que constitui o núcleo da mensagem de Isaias, e ordena a atitude que se exige diante de Deus, o Santo de Israel (fórmula que se encontra 11 vezes na primeira parte de Isaias e 13 na segunda, assim como em Jr 50,29; 51,5 ou nos Sl 71,22; 78,41; 89,19). A teologia da santidade de Deus, que exige a do povo, reaparecerá com Ezequiel, em Isaias 40-55 e em certas tradições sacerdotais conservadas em Jerusalém (cf. Levítico 17-26).
O Deus de Israel é chamado “Deus dos Exércitos”. O término evoca os exércitos de Israel em ordem de batalha; depois, como em Deuteronômio 4,19, designa as constelações ou elementos que constituem o universo organizado. A glória é, às vezes, utilizada como doxologia nos Salmos (Sl 72,19).
O segundo cenário (vv. 5-7) mostra a reação de Isaias diante da visão, e o rito de purificação e sagração de sua boca, que está destinada a falar a palavra de Deus. Isaias confessa ser uma pessoa de lábios impuros em meio de um povo de lábios impuros. Somente Isaias é purificado, logo será a palavra do profeta que invitará à conversão do povo, para que torne ao Senhor. Temos um grande contraste, o profeta de lábios impuros diz que viu o rei, Javé Sebaot. O viu, porém, está chamado a viver, a profetizar, não a morrer. Ver o Senhor ajuda a viver de uma maneira nova. Um serafim leva a cabo a purificação com uma brasa da boca, representando a pessoa toda. O profeta experimenta uma purificação com fogo! E sua culpa lhe foi tirada e seu pecado perdoado, antecipo do que o Senhor quer realizar com seu povo.
A terceira cena (vv. 8-10), não é de visão, mas de audição. Escuta a voz do Senhor que convida a ir, a pôr-se em pé de missão da parte de Deus. O profeta é o “porta-voz” de Deus, leva sempre sua palavra e fala com a mesma autoridade de Deus, por isso usa a expressão “oráculo”, ou “palavra do Senhor” cada vez que se dirige ao povo.
Aqui estou: envia-me!
Vejamos o chamado de Isaias a partir de outros relatos de vocação-missão. Em contraste com Moisés (Ex 3-4), Isaias responde imediatamente. Moisés duvida, apresentando mil desculpas para não aceitar a missão. Jeremias (capítulo 1), também indica sua falta de idoneidade: não saber falar, indicando a qualidade principal para poder realizar a missão. Jacob passa toda uma noite de luta até o sol raiar. Cada pessoa responde ao chamado de Deus desde o mais íntimo da sua personalidade.
Na resposta de Isaias à missão ressoa a disponibilidade de Samuel (1 Sm 3,1-21), a obediência e prontidão de fazer a vontade do orante do Salmo 40,7-11 que logo a Carta aos Hebreus aplicará à obediência total e radical de Jesús à vontade do Pai (Hb 10,5-7); ressoa também a “servicialidade incondicional” de Maria em cumprir a Palavra do Senhor (Lc 1,38); igualmente ressoa a generosidade de Pedro e dos outros discípulos: “nós deixamos tudo e te seguimos”; e, finalmente, evoca a resposta dos primeiros discípulos que encontramos nos Evangelhos como modelo de resposta diante da chamada-missão de todo cristão (Mc 1,16-20;18-22; Lc 5,1-11).
O profeta é chamado a profetizar a esse povo que parece fazer referência a algumas pessoas com responsabilidade, os dirigentes, especialmente os de Jerusalém.
O profeta anuncia a mensagem a esse povo, mas a resposta é negativa, expressada na fórmula: “Escutem com os ouvidos, mas não entendam; olhem com os olhos, mas não compreendam!”. A incapacidade de “entender - compreender” é a atitude básica criticada por essa mensagem do profeta. Quer dizer, tanto Isaias, como Ezequiel (“não te escutarão porque não querem escutar”: Ez 3,4-9) mostram a má vontade para escutar Javé. A fórmula de Isaias é como um trocadilho que poderíamos traduzir desta maneira: Não há pior surdo que aquele que não quer escutar, e não há pior cego que aquele que não quer ver. Quer dizer, a missão de Isaias vai fracassar porque não vão querer escutar a sua mensagem. Mesmo assim o profeta leva adiante a sua missão até o fim, como tantos na América Latina que tombaram no cumprimento da sua missão. Segundo a tradição, Isaias teria sido morto sendo cortado pela metade com uma serra.
BIBLIOGRAFIA:
ABREGO DE LACY J. M., Los libros proféticos, IEB 4, Estella, Verbo divino 2001, pp.117-118.
ALONSO SCHOEKEL L. – SICRE J. L., Profetas. I. Isaías- Jeremías, Madrid, Cristiandad 1980, pp. 139-142.
CROATTO Severino, Isaías. Vol. I: 1,39. O profeta da justiça e da fidelidade, São Paulo - Petrópolis, Metodista-Sinodal-Vozes 1989, pp.57-62.
JUNCO GARZA Carlos, Palabra sin fronteras. Los profetas de Israel, México, San Pablo 32007.
sábado, 3 de setembro de 2011
APARECIDA E A ANIMAÇÃO BÍBLICA DA PASTORAL
247. Encontramos Jesus na Sagrada Escritura, lida na Igreja. A Sagrada Escritura, “Palavra de Deus escrita por inspiração do Espírito Santo”, é, com a Tradição, fonte de vida para a Igreja e alma de sua ação evangelizadora. Desconhecer a Escritura é desconhecer Jesus Cristo e renunciar a anunciá-lo. Daí o convite de Bento XVI: “Ao iniciar a nova etapa que a Igreja missionária da América Latina e do Caribe se dispõe a empreender, a partir desta V Conferência em Aparecida, é condição indispensável o conhecimento profundo e vivencial da Palavra de Deus, Por isso, é necessário educar o povo na leitura e na meditação da Palavra: que ela se converta em seu alimento para que, por experiência própria, vejam que as palavras de Jesus são espírito e vida (cf. Jo 6,63). Do contrário, como vão anunciar uma mensagem cujo conteúdo e espírito não conhecem profundamente? É preciso fundamentar nosso compromisso missionário e toda a nossa vida na rocha da Palavra de Deus”.
248. Faz-se, pois, necessário propor aos fiéis a Palavra de Deus como dom do Pai para o encontro com Jesus Cristo vivo, caminho de “autêntica conversão e de renovada comunhão e solidariedade”.
Essa proposta será mediação de encontro com o Senhor se for apresentada a Palavra revelada, contida na Escritura, como fonte de evangelização. Os discípulos de Jesus desejam alimentar-se com o Pão da Palavra: querem chegar à interpretação adequada dos textos bíblicos, empregá-los como mediação de diálogo com Jesus Cristo, e a que sejam alma da própria evangelização e do anúncio de Jesus a todos. Por isso, a importância de uma “pastoral bíblica”, entendida como animação bíblica da pastoral, que seja escola de interpretação ou conhecimento da Palavra, de comunhão com Jesus ou oração com a Palavra, e de evangelização inculturada ou de proclamação da Palavra. Isso exige, da parte dos bispos, presbíteros, diáconos e ministros leigos da Palavra, uma aproximação à Sagrada Escritura que não seja só intelectual e instrumental, mas com coração “faminto de ouvir a Palavra do Senhor” (Am 8,11).
249. Entre as muitas formas de se aproximar da Sagrada Escritura existe uma privilegiada à qual todos somos convidados: a Lectio divina ou exercício de leitura orante da Sagrada Escritura.
Essa leitura orante, bem praticada, conduz ao encontro com Jesus-Mestre, ao conhecimento do mistério de Jesus-Messias, à comunhão com Jesus-Filho de Deus e ao testemunho de Jesus-Senhor do universo. Com seus quatro momentos (leitura, meditação, oração, contemplação), a leitura orante favorece o encontro pessoal com Jesus Cristo semelhante ao modo de tantos personagens do evangelho: Nicodemos e sua ânsia de vida eterna (cf. Jo 3,1-21), a Samaritana e seu desejo de culto verdadeiro (cf. Jo 4,1-42), o cego de nascimento e seu desejo de luz interior (cf. Jo 9), Zaqueu e sua vontade de ser diferente (cf. Lc 19,1-10)... Todos eles, graças a esse encontro, foram iluminados e recriados porque se abriram à experiência da misericórdia do Pai que se oferece por sua Palavra de verdade e vida. Não abriram o coração para algo do Messias, mas ao próprio Messias, caminho de crescimento na “maturidade conforme a sua plenitude” (Ef 4,13), processo de Discipulado, de comunhão com os irmãos e de compromisso com a sociedade.
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